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sábado, 6 de junho de 2009

Conto " MENDIGO EM CADEIRA DE OURO "

MENDIGO EM CADEIRA DE OURO

Conto:

NOZIEL ANTONIO PEDROSO

Outubro de 2008





Isso é o que mais acontece no mundo, se olharmos com mais precisão para o que se passa à nossa volta, se atentarmos para os fatos com bons olhos e captarmos com vontade o que se passa ao nosso redor. O desperdício acontece a cada segundo em toda parte do mundo. E não trata-se apenas de comida no lixo, sobras de frutas, folhas e legumes nos arredores da central de alimentos das grandes capitais. Há vezes, aliás em grande parte das vezes, que locais como esses servem para criar um bom número de famílias. Tem gente que nunca foi à feira comprar produtos da linha hortifruti. Pra quê, se tudo que precisam eles acham no lixo.
E no lixo de políticos a coisa é mais sofisticada. Lá é bem capaz de acharmos filet-mignon, alcaparra, faisão, molho com champgnion, scargot, caviar russo, champagne francês, frango desfiado ao molho de jabuticaba, arroz a grega, e ainda musse de chocolate, fran de maracujá, bem como lagosta e chester defumado. Mas que se há de fazer, né? Eles podem, afinal o que jogam fora não sai do bolso deles, tampouco é conquistado com o suor do rosto. Então é fácil jogar a toalha na lama, se ela não nos pertence, não precisamos lamentar a grande crosta de barro nela impregnada.
Voltando mais no tempo, nossa mente capta mais desperdícios. Em meados dos anos 70 os Presidentes da República (na época ocupava o cargo como chefe de Estado Emílio Garrastazu Médici e logo após, Ernesto Geisel) jogaram fora milhões em “obras” por esse Brasil afora. Havia e há até hoje centenas de grandes construções iniciadas e, em seguida, abandonadas. Algumas viraram matagal ou abrigo de famílias paupérrimas. Quantas e quantas toneladas de cimento, ferro, cal, areia, telha e tijolos não foram pras cucuias? Um dos maiores exemplos de desperdício do dinheiro público e, muito criticado pela imprensa, foi a famigerada Rodovia Transamazônica, que consumiu uma fábula de dinheiro e até hoje é o pesadelo de motoristas que nela necessitam trafegar.
No século XIX quando nossos irmãos negros eram escravizados - e por conta disso sacrificados, barbarizados, seviciados e humilhados - os brancos, com o intuito de castigar ainda mais os cativos, acabaram por contribuir sem querer com a nossa vasta culinária. Sim, porque aos negros eles jogavam - como se fosse migalhas - os pés, rabos e orelhas de porcos. E ainda vísceras e outras partes mais do suíno, considerados de segunda, os chamados refugos. Só que, com esse material o povo escravizado fazia a festa. Inventaram uns temperos sofisticados e batizaram a feijoada, que é um dos grandes pratos típicos do Brasil e conhecido até pelos estrangeiros. A comida de forte sabor e aspecto encorpado, faz a alegria dos gringos e também dos patrícios, afinal a tal iguaria encanta gregos e troianos. E nesse nosso imenso país de carentes e desabrigados, o desperdício continua a todo vapor. No que tange à Justiça, essa é uma das instituições que mais consomem dinheiro do Estado, no que concerne a dispêndio. O que se gasta com um processinho dessa finurinha é até revoltante, pois o desfecho é por demais desprezível, coisa que não dá em nada. É só perda de tempo e despesas desnecessárias. Por exemplo existe um procedimento chamado defesa prévia, em que o advogado somente escreve, aliás repete o mesmo que faz em outros processos, sempre a mesma frase: O réu não praticou os atos descritos na denúncia, o que ficará provado no final da instrução. E isso não importa que o criminoso tenha confessado na fase policial. Mesmo que ele tenha confirmado e que haja provas robustas, o trabalho (de carta marcada) do advogado é escrever a já citada baboseira. O que é pior: o Estado – via população/impostos – é que paga o advogado para um assassino, estuprador, ladrão, pedófilo, estelionatário e toda gama de gente da pior espécie. Que se há de fazer? A lei dos homens é que determina. Roube! Mate! Estupre! O Estado está nessa com você! Pode bolinar crianças à vontade, dirigir bêbado, atropelar gente nos pontos de ônibus. A assistência judiciária gratuita garante sua impunidade. Derrube a mata, trafique animais silvestres, comercialize maconha nas portas das escolas. Dona Justa está contigo e não abre!
E isso é só o começo. Depois que o meliante é julgado e condenado, ele vai para a cadeia. Enquanto a viúva e os filhos do trabalhador que ele matou passam fome, o bandido vai comer quatro vezes ao dia, com cardápio de primeira, dois tipos de carne, três tipos de salada, legumes, grãos, sucos, sobremesas. Após o almoço, se ele assim desejar, pode curtir uma sonequinha ou - se estiver disposto - participar de um bom samba ali mesmo. É só arrumarem uma timba, pandeiro, cavaquinho, reco reco, pronto. Está feita a farra. E se no dia seguinte ele quiser jogar bola, tudo bem. Seja feita a sua vontade! Há presídios até em que os presos fazem cachaça para alegrar os inóspitos visitantes. Existe uma técnica no campo da química, em que é possível extrair álcool do arroz, através de um processo simples de fermentação. É só misturar mais alguns ingredientes e, pronto, há aguardente até para se comercializar ali entre os presos.
Tenho um amigo que diz que a mãe dele (nascida lá por meados dos idos anos 20, mais ou menos) é a típica senhora simples, desprovida de qualquer vaidade e malícia. Ele disse que ela é bem capaz de trocar uma pintura de Pablo Picasso ou Cândido Portinari por uma galinha carijó, de angola. um galo índio ou - ainda - um maço de cheiro verde. O que importa pra ela é o que ela conhece e curte. Fazer-se o quê? Vai que de repente ela não curte Picasso nem Portinari, aliás pode ser até que ela não entenda nada de pintura, ainda mais de gente que morreu há tanto tempo. Se ele não conseguiu vender enquanto vivo, é sinal que não é coisa boa, é de qualidade duvidosa.
Mas desperdício mesmo é o que os parlamentares gastam com cafezinho, fotocópias, secretários, clipes, grampos, papel carta, gasolina e... uma infinidade de coisas mais. Sabemos que a lista é vasta, enorme, a se perder de vista. E o que é mais “engraçado” disso tudo, é que eles tem verba pra tudo. A gente até nem sabe porque eles tem salário se nem precisam utilizá-lo. Se cismarem de fazer mais uma sala, há verba cimento; para ampliar e sofisticar o banheiro verba azulejo, pra limpar o rabo verba papel higiênico; pra festa de aniversário verba bolo, e assim por diante.
Foi exibida, há alguns anos, uma novela na televisão em que uma mulher era candidata a prefeita. Só que a mulher era super qualificada: era formada em tudo quanto era coisa e, de quebra, ainda falava cinco idiomas. Só que... a localidade era por demais atrasada e, se duvidar, até o arco-íris era em preto e branco. Afinal de que adiantaria para aquele povo ignorante ser governada por uma mulher com tais predicados? Isso sim é que é desperdício, é dar cadeira de ouro pra mendigo!

Conto "Mil Vezes"

M I L V E Z E S


Conto:
NOZIEL ANTONIO PEDROSO
22 de Janeiro de 2009




Essa é a primeira vez que busco escrever um texto, com um título sugerido em sonho. Hoje tive um sonho onde encontrava-me reunido com vários amigos em torno de não sei o quê (os sonhos são geralmente confusos e não nos lembramos o bastante para reproduzi-los posteriormente) e desafiei um deles (Edson Alves Pereira) a me fornecer o título para um novo conto. De vez em quando eu tenho essa mania, mas foi a primeira vez que ocorreu em sonho. E o garoto foi enfático e objetivo: MIL VEZES, foi a resposta por ele proferida. Depois que acordei e esfreguei os olhos, pensei comigo: E agora? O que vou escrever? Mil vezes o quê? Mil dias? Isso é equivalente a dois anos e nove meses. Mil minutos? Corresponde a pouco mais de 16 horas. E assim por diante. Mas esse número sugere algo assim enigmático, denota uma porção de mistério, esbarra em algo místico, possui uma tradição e até, uma grande abrangência tanto na História quanto na Filosofia, passando ainda por Política, Artes e, porque não, pelo cotidiano.
Quem já não ouviu falar das mil e uma noites, nas histórias místicas do Oriente? No campo musical, Chico Buarque nos brinda com os versos “meu pranto não vai nada ajudar, mil versos cantei pra lhe agradar... na canção Carolina, uma das mais bonitas de sua autoria. Engraçado é que quando Chico Buarque foi fazer essa música, foi na base da pressão. A gravadora, por força de contrato, exigia que ele apresentasse mais uma música para fechar o repertório do disco que estava gravando. Nesses moldes o autor precisou fazer uma música às pressas, tipo de qualquer jeito. Conta a história que na composição dessa obra prima, o autor estava pra lá de contrariado e fez a canção com raiva. Dá pra imaginar uma coisa dessa? Falando-se ainda em música, o Padre Zezinho quando compôs a canção Utopia, ele cantava em uma das estrofes: ...desafinado, voz rouca, bem cansado, ele cantava mil toadas, seu olhar no sol poente... E, claro, temos um sem número de inclusão da palavra mil, no universo das canções, como por exemplo, ainda, o cantor romântico Gilberto Lemos (um conterrâneo de Roberto Carlos) que fez um bruto sucesso, no final dos anos 70, com a música Mil razões para chorar.

Mas o número 1.000 sempre deu pano pra manga, desde os primórdios. Sim, porque o número mil parece algo distante, inatingível, uma meta quase que impossível de se alcançar, uma parede alta e lisa o bastante para se escalar. Antigamente (leia-se quarenta anos atrás) quando se falava no número mil, referindo-se a dinheiro, nossa, era um alvoroço. Parecia que o assunto girava em torno de uma fortuna, um valor fabuloso, fantástico, quase impossível de se avistar. Nesses tempos de novo milênio, começo de uma nova era, em que a vã tecnologia substitui cada vez mais e com tendência crescente, a essência e os valores humanos - levando-se em conta ainda a necessidade premente e frenética do vil metal - o valor mil caiu vertiginosamente, sendo reduzido a algo mixo, exíguo, ofuscado, até desprezível.
Quando eu era criança, lembro-me da cédula de mil cruzeiros. Era uma nota cor de abóbora, com a estampa de Pedro Álvares Cabral. Lembro-me que o doce (suspiro, geléia, cabeça de baiano, maria-mole, bolachão) custava trinta cruzeiros. Então mil cruzeiros dava para comprar trinta e três doces e mais um terço. Mil parecia uma coisa tão grande e vultuosa.
Mil vezes. A expressão é usada, outrossim, para designar impaciência e impor resistência, quando nos fartamos de solicitar ou explicar a outra pessoa, algo simples e de grande valia. Face à não absorção de outra parte às nossas palavras ou solicitações, a expressão sempre utilizada é algo do tipo: Já te falei mil vezes ou – ainda – já te pedi mais de mil vezes, e assim por diante...
O número mil exerce sobre as pessoas algo de grandioso, exuberante, o auge da conquista maior. No final da década de 60 (época em que o País foi revolucionado por grandes conquistas com as transformações ocorridas em diversos segmentos) o cidadão Edson Arantes do Nascimento, até hoje então considerado o maior atleta da história, de todos os tempos, estava prestes a conquistar uma grande façanha e ser ovacionado pelo mundo: mil gols, o que conseguiu mesmo antes da virada da década. 0 que pouca gente lembra é que tão logo o maior atleta do século tenha conquistado o grande feito, falou aos repórteres algo como: devemos cuidar das nossas crianças, devemos fazer algo pelas crianças de nosso País... Só que décadas mais tarde recusou sua própria filha, que teve que lutar na Justiça para inclusão da paternidade. E como desfecho temos a amarga realidade que a já mulher formada, foi-se desse mundo com a mágoa de nunca ter sido acolhida - e sequer reconhecida - pelo pai que sempre buscou. Contradições à vista Pelé casou-se com uma mulher branca que já possuía outros filhos da relação anterior, a qual o novo padrasto certamente acolheu.
Em uma revolução qualquer alguém disse: “Se mil vidas eu tivesse, mil vidas eu daria pelo meu País”... Mas o número mil é, às vezes, relativo, e não amealha as dimensões de sua intensidade, se tomamo-lo em toda a extensão da palavra. Exemplo disso consta na Bíblia, no Livro de II Pedro: “Mas, amados, não ignorais uma coisa, que um dia para o Senhor é como mil anos e mil anos como um dia”.
Já no livro Apocalipse, o chamado livro das revelações, a palavra mil insere-se de forma contundente e extrema, em passagens pesadas tais como: Ele prendeu o dragão, a antiga serpente, que é o Diabo e Satanás, e amarrou-o por mil anos. E lançou-o no abismo, e ali o enterrou, e pôs selo sobre ele, para que não mais engane as nações, até que os mil anos se acabem. E depois importa que seja solto por um pouco de tempo, culminando com o desfecho: E, acabando-se os mil anos, Satanás será solto de sua prisão”.
Mas na verdade o bom mesmo dessa história em torno do número mil, é a passagem bíblica quando o Livro Sagrado diz, revestido da sabedoria que sempre lhe foi peculiar: “O homem que respeita e obedece a DEUS será abençoado por mil gerações”
Se a palavra mil, em tempo amistoso e boa paz, tem conotação fraterna e de bons ventos, paz, há o reverso da moeda. Uma expressão que causa-nos repulsa, horror e aversão é: Maldito, mil vezes maldito! Existe mil coisas boas, mil venturas, mas existe também essa expressão de desejo do mal. Que se há de fazer? !




Conto escrito com título sugerido por Edson Alves Pereira (22.12.76), em sonho. Não sei o que o autor da idéia esperaria que fosse escrito, mas o que deu pra fazer foi isso, Paciência... Ah, e mais, ele é que forneceu as passagens da Bíblia que incluem o número mil.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Conto "JANAINA, DOCE MENINA "

JANAINA, DOCE MENINA


Conto :
Noziel Antonio Pedro­so
Abril de 2008


Aquela menininha era por demais bonitinha. Não havia universo algum que ela não encantasse com sua figura esguia, doce e graciosa. Quando sorria então - com os dentinhos de pura canjica e aquela minúscula covinha que se formava na face - parecia que iluminava o ambiente à sua volta. Agradável aos olhos, a menina tinha estatura mediana, cabelos pretos, curtos, encaracolados. Amparando um corpinho delgado, de quarenta e poucos quilos, tinha um andar harmonioso e uma pele morena clara, transbordando frescor e juventude. Janaína. Era como se chamava a linda moçoila de olhos cintilantes.
Quando pequenina sua vida não fôra lá de muitas alegrias. Coitadinha, como milhares de crianças desse nosso País de terceiro mundo, carecia de um melhor conforto, mas as coisas eram limitadas, que se há de fazer? Janaína, não obstante a tenra idade, parecia que compreendia e aceitava bem sua realidade. A mãe da menina, lutadora de nascença, fazia isso daqui para pôr comida dentro de casa. E conseguia a danada. Trabalhava como caixa em um depósito de frutas e, de quebra, ainda fazia uns serviços de costura pra fora. E a situação? Estava dando pra levar, mas cadê que chegava o progresso? Tenhamos paciência, meu Deus, tenhamos paciência. A vida não é fácil, uma hora as coisas se encaixam!
Ano de 1996, marcado por tragédias como aquela grande explosão no Shopping na Capital, que matou quase uma centena de pessoas; o massacre ocorrido em 19 de abril, na zona rural da cidade de Carajás, Pará, em que dezenove trabalhadores foram trucidados num confronto de terras; numa cidade do Nordeste o então político corrupto, Paulo César Farias, tesoureiro do Presidente Fernando Collor de Melo, é encontrado morto ao lado de sua amante, Susana Marcolino, num dos episódios políticos mais sórdidos de nosso tempo.
Janaína, alheia a todas essas notícias ruins, vivia apenas a povoar seus sonhos da mais pura fantasia, da doce magia, dos devaneios de toda criança. Passava os dias enchendo de alegria e de ternura a mãe e a avó. Mal podia imaginar a pobrezinha, que estava prestes a ter sua própria notícia ruim. Quando contava com apenas oito anos a menininha passou por maus bocados. Era uma tarde chuvosa e nublada, feito aqueles dias ideais para bruxas fazerem piquenique, como se lê nas histórias em quadrinhos. Tudo ia bem, Janaína estava em casa na companhia da mãe, quando de repente, não se sabe daonde, surgiu aquele baita pastor alemão preto que até babava de tão bravo. E covardemente atirou-se de vez sobre a menina, jogando-a pelo chão com violência. Nisso estabeleceu-se um tremendo celeuma, na pequena casa. Todos gritavam assustados ante a gravidade e surpresa daquela situação calamitosa. E cadê que o cachorro dava trégua? O malvado cão sacudia a pobre menininha pra lá e pra cá, num ímpeto selvagem, protagonizando um cenário tétrico, que fez com que todos à volta ficassem sem ação, sem saber o que fazer, mergulhados naquele abismo de horror. À custa de muito grito e tentativa desesperada de desvencilhamento, o animal afastou-se assustado e foi embora, pra alívio de todos. Mas na pequena casa, todos custaram a se recuperar do enorme susto. Janaína, que judiação, tadinha, caída no chão com escoriações no tórax e sangrando bastante pela ação dos fortes dentes daquele cachorro cruel.

A mãe, ainda sob efeito de choque, transtornada, notou que no local das mordidas havia nervos expostos. Meu Deus? E agora? Mantenhamos a calma, ainda bem que o cachorro não atacou pontos vitais, nem há qualquer sinal de hemorragia. Dos males o menor. Vamos estancar o ferimento e fazermos um bom curativo, não há de ser nada grave. Oh, coitadinha da minha filha, tão pequenina e aquele cachorrão covarde foi atacar justo ela. Meu Deus! Agora podemos relaxar um pouco, tudo já passou, graças a Deus. Traga desinfetante, pomada penicilina, gaze e esparadrapo. Vamos dar um jeito nisso, ouviu bonitinha? Você vai ficar bem!
Ufa, assim foi feito. E tal como todos esperavam, graças a Deus, a pequena estava recuperada depois de apenas duas semanas. Não houve inflamação no local, nem seqüelas, com exceção para a pequena cicatriz que se formou na região, que foi acentuando-se com o passar dos anos, até atingir um estágio permanente.
Mas Janaína recuperou-se totalmente desse trauma. Vivia sua vidinha tranquilamente, com as amiguinhas, na escola e em casa. Formou-se com louvor no primeiro e segundo grau. E agora? E o futuro? O que será que quero ser na vida? Ah, já sei: terapeuta. Mas e o vestibular? Ah, eu vou fazer. Janaína, eta garotinha de garra e decisão. E o resultado: O quê? Quinto lugar, mas que maravilha. Parabéns. Mas como cantou um inspirado Martinho da Vila nos anos 70: Felicidade, passei no vestibular, mas a Faculdade é particular. Livros tão caros, tanta taxa pra pagar, meu dinheiro muito raro alguém teve que emprestar.
É, a concretização de cursar a tão sonhada Faculdade encontrou impedimento na situação financeira. Puxa, as coisas quase nunca são mesmo como a gente quer. Que remédio. Vou tentar outro vestibular. Hum, que tal Ciências Contábeis? Lá vai Janaína outra vez mergulhar no universo dos livros e apostilas. O dia da prova que chega. Janaína enfrenta com serenidade e altivez aquela nova etapa. E o resultado? Nossa, primeiro lugar, eta menininha dedicada e inteligente. Passou todo mundo pra trás. É, mas... Ué, mas o quê, menina? Na verdade... eu não gosto da matéria. Gosto mesmo é de terapia, ah, se eu pudesse fazer o curso. Taí uma coisa que eu sinto que eu me daria bem. Mas...
Mas quem sabe? Não acabou, os dados ainda estão rolando. Você vai ver, ainda vou conseguir o que eu quero, afinal tenho garra bastante para alcançar e realizar meus sonhos. Me aguarde!
Você viu com que paixão a Janaína trata dos gatos? Nossa, ela adora os bichanos, devia ser veterinária. Tenho certeza que os felinos ficariam em boas mãos. É mesmo hein... para a pessoa se dar bem na profissão e atingir a satisfação plena e absoluta tem que fazer aquilo que gosta. Aí podemos ter certeza que a pessoa está trabalhando com gosto, com garra, com afinco e, desse modo, os trabalhos têm mais conotação de eficiência e até uma boa dose de sinceridade.
Um dia passeando por uma loja de presentes, a menina viu uma bonequinha que lhe chamou a atenção. Nossa, que lindinha, meu Deus que coisinha mais bonita. Gostou? É da linha Hello Kitty. Vou pedir pra minha mãe comprar uma pra mim. Eu gostei por demais. Adorei. É de origem japonesa.
Janaína, o tempo passando e deixando para trás os acontecimentos bons e ruins. Puxa, queria tanto cursar a faculdade, fazer curso de Terapia. Eu tenho afinidades com o assunto. Pois, pode pular e rodopiar, você ganhou uma bolsa de estudos 100%. O quê? Não brinca. Como posso brincar com uma coisa dessa? Você já está na Faculdade, menina, pode comemorar. Vou correndo contar pra minha mãe. Ela vai ficar tão contente.
Janaína, como estava radiante de felicidade. A realização de sonhos às vezes tarda, mas sempre acaba acontecendo. E estava ali à sua frente aquela concretização de seu sonho maior. Ah, juro que vou ser uma boa terapeuta, vou me dedicar por inteiro naquilo que gosto, naquilo que é meu ideal de vida. Diga, espelho meu, existe alguém mais feliz que eu? Existe sim, Janaína: a sua mãe. Sim, porque não há nada nesse mundo para uma mãe, do que a felicidade de seus filhos, pois pode acreditar que ela está tendo felicidade dobrada, simplesmente por sabê-la feliz e realizadora de seu sonho maior, coisa que talvez ela não tenha tido na vida, ou por um motivo ou outro não conseguiu realizar. Agora, seja lá o que for que tenha acontecido, ela está realizada e mais do que qualquer outra pessoa, com o coração vibrando por sua felicidade. Esse êxtase que acomete seu espírito, colheu-a em dobro.
Janaína, doce menina, mereceu esse solavanco em prol de seu sonho, afinal nosso mundo tosco carece por demais de pessoas que têm o dom de realizar, de fazer acontecer. E aquela garotinha de figura frágil, porém arrebatadora de sua força de vontade e determinação, acabou por concretizar seu sonho. Deus seja louvado. Boa sorte, Janaína!

Conto "VOCÊ NÃO VAI ACREDITAR "

VOCÊ NÃO VAI ACREDITAR




Conto:

NOZIEL ANTONIO PEDROSO

06 de Janeiro de 2009





Você soube que o Nélio esteve aqui neste feriado? O quê? E o filho da mãe nem pra dar um alô pra gente? Como diria meu pai, mas que gramputa! E tem mais, sabe aquele irmão dele que foi embora lá pro Sul há uns dez anos? Também esteve por aqui. Mas como ele tá diferente, rapaz. Se você olhar assim, de cara, não vai nem reconhecê-lo. Ele tá que nem um capado, de tão gordo. E sabe quem estava com ele lá no Monte Silveira? 0 Jorge da Quiquita. Ele até que enfim colocou dentadura. O quê? O bicho tá irreconhecível... Tá mordendo que só vendo. Agora tudo quanto é coisa ele quer morder. Não sossega o maxilar um minuto. Imagina que ele quer morder até o... o... Ah, não acredito, até isso? É, com certeza quer tirar o atraso, afinal desde quando ele é assim, desdentado? Olha, rapaz, desde que o Brasil era ainda tricampeão do Mundo. Porra, mas isso faz um bocado de tempo hein? Quanto torresmo pintou de lá pra cá, quanta rapadura já não deu sopa nesse período...
Mas, mudando de pato pra pinto, sem querer fazer trocadilho, sabe quem tá embuchada? a Solange, filha da Maria Pintada. E sabe de quem? Do Aurelinho, aquele policial lá do Morro do Engenho, filho do Miguel Carpinteiro. Creio em Deus Padre! Ele não é casado com a Cidinha Verdureira, irmã da Miramar Pata Choca? Puta que pariu, isso vai dar uma puta de uma cagada... Nem quero ver... Vai ser um alvoroço na comunidade. Tá igual aquele ditado: alegria de bombeiro é ver o circo pegar fogo. E tem mais, sabe o Chiquinho, amigo daquele japonês lá do Cantão da Enseada? Sei, sei, aquele barbudinho que não sai do bar do Damião... Aquele mesmo, aliás, os dois não saem do bar, ainda mais agora que só andam em companhia do Duiá e do Ticão, lembra dele? Irmão do Tonho. Ih, aí é que a coisa pega mesmo. Aquilo ali foi amamentado com cachaça, dizem... Ah, eu não duvido, não. Então, o que tem o Chiquinho? Ele tá de olho gordo em cima da japonesinha do amigo... É só o chacareiro sair com a enxada nas costas que Chiquinho vai lá na casa pra tomar um chazinho. E até que a mulher, que mais parece um projeto de gueixa, é atenciosa. E sabe como é que é, né... um chazinho aqui, uma bolachinha acolá, hum, dizem até que a mulher já baixou o quimono... Hum, será? Mas, esse povo fala demais. Onde já se viu? Eu não acredito. Será que o Chiquinho vai fazer isso com o melhor amigo? Com o amigo não, claro, mas com a mulher dele... Você sabe, meu, o que tem de homem sem vergonha por aí não tá escrito. Tens uns até que parecem com aquele bicho esquisito, o suricato, que não sossega o olho, toda hora levanta o pescoço pra enxergar, sabe-se lá o quê. Gente que não pode ver um courinho dando sopa, que já quer, ó, se aconchegar. É, conheço gente assim... Ainda mais... hum. Ainda mais o quê? Ah, sendo assim tão proibido a coisa tem mais sabor, a tentação dobra de peso. Será que é mesmo de atravessado, como dizem? Olha, te garanto que não. Êi, como é que você sabe disso tudo, hein? Não vá me dizer que já... Hum, cala-te boca, cala-te boca... Sabe que outro dia o Menélio e o Alfredo ficaram na porta da igreja e fizeram uma estranha aposta? Toda mulher que passasse por eles, a manifestação era tico, caso eles já tivessem traçado a dita cuja. Então ficou aquele festival tico de lá, tico de lá. Passava uma, tico, dizia um, tico, rebatia o outro. E foi passando aquele montão de mulheres, mocinhas, meninas e os dois disparando tico tico. E lá vinha a Teresa, mulher do coletor. Tico disse um. O outro ficou calado. O quê? A mulher do Honório Coletor? É, foi um dia em que fui levar as compras na casa dela. Ora, ora, quem diria, com aquele ar de mulher séria. Espero que o Honório nunca deixe de ser freguês do mercadinho... Mas você é à toa, hein... Quem fala, você não fica pra trás... traçou até a Auzimara, aquela novinha bonitinha, neta do Zacarias Boiadeiro. E que coisinha, cara... Nem te conto. Ah, eu imagino, o xixi dela deve igual champagne francês. Mas nós dois somos de arrepiar, hein... Porque nesta cidade, tirando minha mãe e minha irmã, nós... Tico, tico, rebateu o outro. É mesmo? É, a amizade dos dois ficou abalada... Você não vai acreditar...
Mas, tem ouvido falar do Patola? Parece que ele quer largar da mulher, lembra dela? A irmã do Tatu, prima do Janjão Caneludo? Ah, claro, filha do pastor Silvino... Essa mesma. Ué, e porque ele quer largar da mulher? Ela é uma mulher direita, trabalhadeira, religiosa, boa mãe... Ah, por isso mesmo. Tem homem que só gosta de mulher ordinária. Ele arranjou uma costureira lá pras bandas do bananal do Ostézio Espoleta. Ah, já sei, não é uma que foi amigada com o Silvestre Caxias, irmão do Catianga? Exatamente, essa mesma. E sabe porque o Silvestre mandou ela embora de casa? Pelo que me contaram, parece que ela adorava sair sozinha á noite, ia pros forrós, enchia a cara, batia coxa com tudo quanto era homem. Você precisava ver o tamanhinho do short que ela usava quando ia pra gafieira. Aliás a palavra short em inglês já quer dizer curto. Agora você imagina um short curto. É, sem dúvida, curteza ao quadrado. E também tem o fato que ele flagrou-a deitada com o Agenor lá no estábulo, no meio do feno. Aliás. Não entendo como é que tem homem que agüenta passivamente uma chifrada dessas. É mesmo, hein... Pra encurtar a história motivo é o que não falta.
E o pior você não sabe. O Maneco Otávio foi fazer um serviço na casa do Deoclécio Chapelão, mais precisamente no guarda-roupa que estava no quarto dele. Acontece que o móvel estava repleto de roupas, claro, ele foi feito pra isso. E a mulher do Chapelão não havia demonstrado boa vontade em esvaziá-lo para que o homem pudesse trabalhar. Foi aí que ele disse: “Se a senhora não tirar a roupa em não posso fazer o serviço”. Foi justamente na hora que o marido chegou. E Maneco foi logo se desculpando: “Você não vai acreditar...”

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Conto " ESPELHO, ESPELHO MEU "

ESPELHO, ESPELHO MEU



Conto:

NOZIEL ANTONIO PEDROSO

Agosto de 2008



Tudo quanto era tipo de espelho e pente, acredita-se, ela já utilizou. Quem sabe até aqueles indianos, chineses, das feiras de Nepal, de Amsterdã, dos mercados africanos do Cabo Verde, de Angola, das aldeias européias de Portugal e França. Nunca vi coisa igual. Tornou-se um vício, um comichão, um troço exacerbado, exagerado, extremado. Aquela interessante mulher, ostentava uma altura equivalente a um metro e sessenta e dois, magrinha - de pouco mais de três arrobas - corpinho bem assentado. Não sossegava o facho enquanto não pegasse o espelhinho, desse uma boa olhada na cara e ajeitasse o cabelo. E a coisa acontecia a cada cinco, dez minutos. De vez em quando entortava a boca, conferia a limpeza dos dentes, fazia uma careta, como se estivesse duvidando que era a cara dela mesma que estava ali estampada. Era até enjoativo. Aquilo estava enchendo o saco de todos ali. Mas Onivaldete não largava daquela mania, por mais que as pessoas falassem que aquilo estava já demais. Onde já se viu uma mulher com essas maneiras, ficar de espelhinho na mão a conferir a performance facial? E o que é pior ainda, ela retocava o batom ali mesmo, na frente de todos. Que coisa mais fora de ética, que falta de protocolo, bons modos, diziam alguns. Mas aquilo era comum ali. Que se há de fazer, né? Nesse nosso mundo existe de tudo. Tem gente polida, gentil, mas tem também aquelas grosseiras, toscas, sem um pingo de classe. Não podemos, nem devemos esperar que todos sejam como a gente espera. E, acredite, mania de beleza à parte, a moça ainda se achava feinha, ajeitadinha mas feinha. Pode?
Onivaldete tinha um amigo muito chegado, que vivia pegando no pé dela, com aquele costume chato. Ora, deixe disso mulher, que falta de bons modos ficar se embonecando na frente dos outros. Vá ao banheiro, num lugar reservado, caramba. Seja discreta. A mulher tem que ressurgir maquiada, mas sem que ninguém assista sua investida na beleza, senão, que graça tem? Fica sem brilho, sem surpresa, banal, reles, mixo, pobre...
E a menina fora disso, até que era engraçadinha. Tinha um andarzinho assim ligeirinho, vivia com os lábios a brilhar, por conta do batom cintilante, usava sapato de salto e bico fino, blazer, lingerie da Du Loren, coisa e tal. Beijoqueira como ela só, vivia a tascar selinhos. E que boca limpinha tinha a moçoila. Era gostoso o contato aconchegante com aquela boca. Só se sentia o cheiro agradável do batom. Vivia sempre de “cabeça feita”, ora no salão da Terezoca ou na Soraia Cabeleireira. É, a moça vivia numa chiqueza só. Mas apesar disso tudo, às vezes Onivaldete carregava uma tristeza no olhar, uma mágoa na alma, uma disformidade quase ascendente na personalidade. O que será que a moça escondia por detrás daqueles momentos em que ela dava aquela risadinha marota? Sofrera de depressão no passado, e dizem até, por conta de um amor não correspondido. Ela nutria uma paixão sem fim por Jair Calazans Emicciolli, que apesar do sobrenome pomposo era pobre. Mas o jovem era trabalhador e bastante esforçado. Ganhava a vida como vendedor de anúncios numa rádio local e era representante ainda da Comercial Veronese, uma empresa de gêneros alimentícios e enlatados.
Mas os negócios não iam bem. Coitado do Jair, ele não tinha culpa que o dinheiro não circulava na cidade e região. Ele tinha que dar um jeito de sair de Remanso, fazer vida em outro lugar mais evoluído. Mas cadê que aparecia uma oportunidade? Jair continua ali, com gastura, doido para se livrar daquele marasmo. Mas registra-se um dito popular: quem espera sempre alcança.
Um dia apareceu uma oportunidade de ouro, um lugar como supervisor numa empresa de lacticínios, que trabalhava em parceria com uma usina situada na França. Ele conseguiu tal empreitada numa de suas andanças como vendedor. Conheceu um comerciante rico e lhe deu um bom desconto nas compras, já que ele comprou uma grande quantidade. Olha só que grande salto deu o rapazinho do interior. E lá foi-se ele para Le Monde Du Lait. E Onivaldete, hein? Se tivesse investido no cara, isto é, se não se preocupasse com dinheiro, posição social e uma gama de materialidade, até que podia ter se saído bem. Casou-se com Afonso Lucera Lambisani Pandolfi, um empresário do ramo de transportes, que na época até que estava bem. Mas as coisas mudaram. O setor entrou em crise e o tal empresário começou se afundar em dívidas, já que era um verdadeiro mão aberta, vivia promovendo festas e mais festas para os amigos, jantares. E o dinheiro sumindo, a grana entrando pelo ralo.
Até que houve um tempo em que ele, com a ajuda de Adelino Assunção, um tipo sabichão que era conhecido como Carrapicho, amigo dos velhos tempos de escola, começou a dar pequenos golpes na empresa Terra Viva, que era representante de insumos agrícolas. Carrapicho fazia o transporte de insumos para três postos agrícolas que havia nas cidades vizinhas. De início ambos surrupiavam pequenas quantidades, tipo para a pinga do dia. Depois foi crescendo a ganância e junto com ela a imprudência e o descuido. O dono da empresa, juntamente com o contador, começou a ficar encucado com o volume de produtos que baixavam muito depressa no controle de estoque e, isso não batia com a quantidade da receita registrada.
A partir dessa desconfiança, toda contabilidade era controlada com rigor pelo contador. Até que uma noite fizeram tocaia dentro do depósito. O empresário agrícola, juntamente com o Delegado, policiais e três testemunhas, pegaram de jeito o ladrão e seu comparsa. Não houve acordo. O tal empresário, outrora endinheirado, foi tomar café de canequinha e ver o sol nascer quadrado. A lei funcionou neste caso, porque o tal comerciante não era mais tão rico assim. Estava em dificuldades financeiras, enfim não tinha mais poder. E Onivaldete, nessas alturas, se mandou e não mais quis saber de nada. Foi morar numa outra cidade, onde tinha alguns parentes e mudou de vida completamente. Entrou no ramo da moda e levava a vida nesse universo de luzes e ribalta. Puxa, como as coisas mudam, como o tempo passa e arrasta consigo os acontecimentos de outrora.
Nunca mais se ouviu falar de Jair. Que estaria ele fazendo agora? E aí, você soube do Jair? O cara está morando na Avenue Foch, em Paris, casou-se com a filha do dono da empresa e está tornando-se um investidor de primeira. Quem diria hein? Da escuridão do interior, para os holofotes da Europa. Esse sim é que teve sorte na vida. É aquilo que eu digo e repito: ninguém fica rico só com trabalho, não. Há que se ter uma boa mão da sorte. E... às vezes, temos que tratar de fazermos nossa própria sorte, sabe como é, né... nem que seja por caminhos tortuosos... Êh, mas você também, hein... Olha, estamos num mundo que quem pode mais, chora menos. Como diz um velho ditado: camarão que dorme a onda leva!
E Onivaldete, agora, transformara-se mais que nunca numa fissurada pela imagem. O número de espelhos cresceu assustadoramente, e a freqüência com que admirava sua imagem refletida também. Isso estava colocando-a como a mulher que mais se admira no mundo. Uma verdadeira Narcisa. Só falta dirigir-se ao espelho e perguntar: espelho, espelho meu, existe no mundo mulher mais bela, mais nojenta e mais vaidosa do que eu? Certamente o espelho responderia: Não, claro que não, Onivaldete. Você se superou. Não há páreo para você! Você é, com vantagem, a detentora do troféu. Nunca vi coisa igual!

Conto " TRINTA ANOS "

TRINTA ANOS


Conto:

NOZIEL ANTONIO PEDROSO

03 de Janeiro de 2008




Ela era pouco mais que uma adolescente, corpinho delgado, cintura fina, olhos brilhantes, cabelos esvoaçados ao vento, mente, quiçá, povoada de sonhos e aspirações, hipocampos a faiscar freneticamente, neurônios agitados, à procura de conhecimento e novos horizontes. A mocinha de figura graciosa era, até então, apelidada pelos parentes de pau de virar tripa, face à acentuada magreza que sobressaía-se por sobre as vértebras pontiagudas. Desde então a moçoila, já integrante do serviço público, começava sua escalada rumo a uma desgastante carreira no Poder Judiciário. Trinta anos atrás. Credo, o que é isso? Ora, é simplesmente três décadas, 10.950 dias, 360 meses, enfim, é tempo pra cristão nenhum botar defeito. Já pensou agüentar todo esse tempo num só lugar e, pior ainda, no serviço público? Pois é justamente isso que Teresa Cristina Paiva Vicente, vem enfrentando desde que era uma garota de apenas 19 aninhos, certamente com objetivos proeminentes, em contato direto com a corrente da roda viva, com os hormônios exacerbados e ânimos á flor da pele. Mas (sei que é um lugar comum insuportável) o tempo passou e, com ele carregou todos os acontecimentos que ocorreram nesse período. Mas... não apagou as lembranças, amargas ou doces, que ocorreram durante esse tempo e que dele foram originários.
Aliás, dissertando-se sobre o assunto tempo, todos os períodos, na verdade, são válidos e até imprescindíveis nas nossas vidas. Sem essa de querer ficar a vida toda nos vinte anos, como se isso fosse garantia de felicidade. Cinco anos após, você com a mesma cara, mesmo jeito, mesmos hábitos. Dez anos após, você mesma cara, mesmo jeito, mesmos hábitos. Vinte anos após, você mesma cara, mesmo jeito, mesmos hábitos. Trinta anos após, você mesma cara, mesmo jeito, mesmos hábitos. Até quando você agüenta isso? Você vendo passar por si a batalha dominadora, arrasadora, levando tudo pelo caminho, a ascensão dos mitos, a efervescência da massa, a mudança de regras, a evolução das espécies. E você lá, novinho em folha, mas sem motivação alguma, em contraste com o que se passa à sua volta. Isso não é mais uma dádiva, é um desespero, um caminho sem volta, uma prisão em forma de monstro. Quero ser mais velho, quero ter a sensação de ter vivido todos esses anos, de ter aprendido a ser mais ponderado, quero ter a sabedoria dos mais velhos. Não. Não quero mais ter eternamente vinte anos, cansei de ficar nos vinte anos e não desenvolvi até hoje o bom senso, a prudência, a sabedoria, o discernimento.
Imagine você vendo passar pelo corredor invisível da vida, os acontecimentos mais variados, e inerte em seus vinte anos, com seus contemporâneos velhos, doentes ou mortos. E você sozinho, sem afinidade com a geração de sua idade, já que os valores entram em choque com suas idéias e costumes. Se arrependimento matasse. Não quero mais ter vinte anos. Queria ter seguido o curso normal da minha vida, puta merda. Não agüento mais ter vinte anos por toda a vida.
E trinta anos passa mais depressa do que pensamos. O que houve de marcante trinta anos atrás? Fora as tragédias diárias, que de tantas que são, nem mais marcamos as datas, ocupava o Vaticano o Pontifício Paulo VI. Elvis Presley, até então o maior ídolo do rock mundial, morre, com apenas 42 anos, de overdose de drogas, vício que o acometia já há alguns anos. Na música as paradas de sucesso, televisivos e radiofônicos, eram dominados por Antonio Marcos (morto em abril de 1992) com Quem dá mais, Sidney Magal com O meu sangue ferve por você e Peninha com Sonhos. Outros sucessos, ainda, invadiriam as rádios no decorrer daquele ano como aquele estrondoso sucesso de César Sampaio Com uma lágrima na garganta e Benito di Paula com Assobiar ou chupar cana. A TV Tupi, arrebatava as atenções como uma das mais populares emissoras do País. Na época exibia a novela O Profeta, escrita por Ivani Ribeiro, uma especialista em criar sonhos e fantasias para milhões de brasileiros sonharem acordados no horário nobre.
E Teresa Cristina? Curtia tudo isso e vivia intensamente toda essa gama de euforia. Final dos anos 80 e começo dos anos 90 a - já agora - jovem senhora e genitora de um trio de varões, estava trabalhando em outra cidade, no setor administração. Devido à correção no seu ofício e bom conceito que desfrutava junto aos superiores, ela teve o nome indicado para uma promoção que modificaria totalmente seu rumo profissional. A jovem passaria a comandar um cartório com três subdivisões, teria carta branca para tecer os serviços à seu modo. Cristina tomou aquilo como um grande desafio e, de certa forma, via-se temerosa em aceitar essa grande mudança, seja pelo desconhecido que nos mete medo (como diz Caetano Veloso: (e à mente apavora, o que ainda não é mesmo velho), seja por insegurança e receio de falhar no que lhe fôra confiado. E agora? Será que aceito? Será que não aceito? Ora, se eu não aceitar vou perder uma grande oportunidade. E tudo pode dar certo, porque não? Vou me esforçar bastante para garantir meu sucesso nessa empreitada. Que é isso, eu com medo de falhar? Mas que porra é essa? Não posso me permitir esse fiasco, afinal a vida é feita de desafios, as metas devem ser atingidas. E eu bancando a cagona? E, ainda, posso contar com a ajuda dos amigos. Caso contrário, se eu não aceitar vou estar fugindo de uma responsabilidade e me acovardando às oportunidades que a vida nos dá. Quer saber? Já aceitei! Ah, puta merda, não devia nem ter me deixado levar por pensamentos negativistas. Tenho amigos aqui no recinto. Tenho certeza que todos vão me dar a maior força, e é certo que estamos juntos há um tempão.
Cristina enganara-se. Aí é que ela começou a enxergar melhor o que realmente é o ser humano, começou a reparar que entre as plantas havia ervas daninhas, que o trigo estava sendo contaminado pelo joio, que inseria-se de forma clara e evidente naquele clima de amizade, a decepção, o malogro, gerando assim a resignação e a certeza que tais demonstrações de carinho eram convenientes enquanto perdurassem certos interesses. O quê? Não é possível, mas aquele sujeito me descartou. Pôxa, ele sempre foi meu amigo, tomamos umas juntos várias vezes, demos boas risadas na madrugada. Meu Deus, aquele outro, que só faltou me jurar amizade eterna? Cantamos por diversas vezes no mesmo tom. Como é que teve coragem de me virar as costas, justo agora que eu mais preciso de apoio? Puxa vida, como a gente se engana com o caráter alheio. Nunca imaginei que aquele indivíduo iria mostrar essa sua outra face, que eu, ingênua e tola, desconhecia até então, aliás preferia também nunca ter conhecido a primeira face, pois ela é realmente o perfil encenado por essa face que agora se mostra de forma inequívoca.
Mas, todavia, por mais que seja forte a tempestade, por mais que seja rigorosa a rajada de vento que parece arrasar tudo pelo caminho, sempre aparece a bonança para amenizar tudo. Agora é que vou poder realmente conhecer meus verdadeiros amigos. Cristina, coitada, levou fama até de mulher infiel para conseguir a promoção. Que calúnia, que crueldade, como o ser humano é leviano e inconsequente. Esses comentários infundados e sem razão de ser, ecoavam pelos corredores, pelas rodinhas de conversa, pelos sanitários. A pobre mulher jamais havia imaginado que algum dia seria alvo de tais barbaridades.
Mas com o apoio de uns poucos amigos, a honesta mulher superou todas as decepções e mágoas, sem precisar abaixar a cabeça. É isso, saibamos valorizarmo-nos, saibamos dar vazão à nossa capacidade de superação, saibamos correr em direção ao sol, saibamos dar um basta no falso, na impostura.
Trinta. Trinta anos transcorreram desde aquele, então início de carreira que, diga-se de passagem, vem sendo vitoriosa até agora. E aí, vocês que muito fizeram para que eu não estivesse no lugar que estou hoje? Não vêm me dar os parabéns? Não vêm aqui querer saber como eu me saí, depois de toda torcida contra? Hein? Por que não reconhecem que vocês falharam? Eu não fracassei porra nenhuma, como vocês esperavam e até torceram. Eu entrei em todas as estruturas e soube sair delas, caminhando com cautela. E vocês o que fizeram de bom durante essas três décadas? Já sei, aposto que amargaram derrota atrás de derrota. Não viram o tempo passar, (como Carolina, do Chico Buarque) debruçados na janela? E então, conseguiram edificar algo? Nunca desejei nada de ruim a ninguém, isso não é de minha índole, mas como se diz por aí: o peixe morre pela boca. Sinto muito, mas eu venci e vocês perderam. Não guardo mágoa alguma, mas toda decepção me deu uma grande lição de vida: Nunca deixe que uma vitória te conquiste de vez, tampouco que uma derrota te derrote.
É isso, eu sou mais eu e estou com tudo!


Texto escrito especialmente para a minha amiga (e chefe) Teresa Cristina Paiva Vicente, que em 15 de dezembro de 2007, completou trinta anos no serviço público.
Registro-SP

terça-feira, 2 de junho de 2009

Conto " Samanta "

SAMANTHA

Conto:
Noziel Antonio Pedroso
Abril de 1992



- Não seja doida, Rosalícia. O que passou, passou. Henrique está casado agora. Você tem que admitir que perdeu...
- Mas, Rosana, ele marcou um encontro comigo, ele ainda me quer. A mulher dele está longe... não vou resistir...
- O que você espera de um homem desse? Você acha que ele vai largar a mulher e o filho por causa de você?
- Claro que não, mas quero ter o gostinho de ver aquela perua com um par de chifres na testa. Na verdade o Henrique ainda me ama. Se ele gostasse realmente da mulher não teria me procurado...
- Deixe disso, boba, ele só quer se divertir. Sabe como é, variar um pouco.
- Rosana, estou decidida. Vou passar esta noite com Henrique. Apesar das contestações das amigas e de todos que conheciam seu passado com Henrique, Rosalícia estava mesmo disposta a levar seu plano até o fim, afinal foram cinco anos de namoro, ela não podia se conformar assim. Muitos planos foram feitos, tudo estava maravilhoso, até que chegou aquela mulher exuberante para virar a cabeça de Henrique e, o que é pior, levou-o ao altar.
Henrique e Rosalícia. Motel. Champagne. Lençóis coloridos. Cheiro de desejo no ar. Entrelaçamento de corpos. O amor reprimido dava agora vazão à sua existência, em toda sua plenitude.
- Você e esplêndida, Rosalícia. Como e bom estar aqui com você.
- Fale menos, Henrique. Vamos aproveitar esses nossos momentos com sofreguidão. Me abrace de novo.
Fim de noite. Começo de madrugada. A alvorada dava in¬dícios de sua chegada, com as gotas de orvalho vagarosamente batendo nas folhas, provocando um leve ruído que mais parecia um afago aos ouvidos. O silêncio era absoluto.
- Tenho que ir agora, meu bem. Ainda hoje tenho que visitar um cliente em Perdões.
- Puxa. Já? E quando vamos nos ver outra vez?
- Não sei. Vai ser difícil... mas quando der eu procuro você.
Henrique, apesar de ter se mostrado carinhoso, ardente, não tinha a mínima pretensão de abandonar a esposa para viver com ela e, isso ficou claro para Rosalícia que aceitava aquela situação. Henrique estava trabalhando numa empresa de laticínios e ocupava um cargo importante. A empresa pertencia a seu sogro, um dos mais bem sucedidos empresários do setor pecuarista. Passa-se uma semana. Duas. Três. Nem sombra de Henrique. Rosalícia sonhando com um novo encontro.
“Porque ele disse que vai ser difícil? Ele não pode fazer isso comigo”. Rosalícia vai pensando e caminhando.
De repente sente uma indisposição. Fica tonta. Escora-se naquela parede que esta a sua frente. Não era possível. O que estava acontecendo?
Apavora-se. Fica pálida. Aqueles sintomas... que ela tanto já ouviu falar. Não... Não podia ser... Corre para casa da amiga Rosana à procura de ajuda. Juntas resolvem ir ao médico. Exame. Teste. Putz, e agora?
Será? Como é angustiante esperar um resultado desse tipo. Puta merda. Que situação. Chega o médico com o resultado. Ele apenas balança a cabeça afirmativamente. Rosalícia estava grávida. Ela sente o solo lhe faltar aos pés. E agora? E Henrique?
Depois de ser escorraçada de casa pelos pais, Rosalícia percorre casas de amigos. acomoda-se aqui e acolá, trabalha como faxineira numa casa, como diarista em outra. Assim ela vai levando a vida. O tempo passando. E Henrique? Nunca mais ouviu falar dele. Também nem mais queria. Aquele filho ia ser dela somente. Não ia ter pai. Henri¬que fica sabendo, mas nada podia fazer. Ele estava casado e muito bem casado, com a filha do dono da empresa onde tinha um cargo de confian¬ça. Quanto tempo ele esperou por isso? Imagine, depois de tanta luta, largar tudo para viver com uma que não tem onde cair morta? Eu, hein... Nem pensar... Puxa vida, gostei tanto dela. Ela me ajudou muito. Me deu tantos conselhos... mas... também, né ... que se há de fazer? A vida não pode ser levada e motivada apenas pelas coisas do coração. A gente tem que agir pela razão, senão dança... Não se mexe em time que está ganhando. Então, Rosalícia, sinto muito... você até que é jeitosa, gosto de estar com você, mas ninguém mandou você não ter dinheiro... Rosalícla, a barriga crescendo. Nossa, como está enorme. Está chegando o dia... Você não está em condições de trabalhar...
Chega o dia. Vamos pra maternidade. Ai, estou tão nervosa. É natural. É a primeira vez. Vai, empurra com força. Mais, Mais... Ahhhhhh... Ainda não deu... Já apareceu a cabeça... Força... mais um pouco... Está vin¬do. Nossa... saiu... pega com cuidado... Deixe-me ver... é uma menina! Nossa, que gracinha. E agora? Mais uma boca para alimentar... Qual vai ser o nome dela? Ah. já escolhi: Samantha. Samantha? Puxa, que nome boni¬to. Rosalícia, novamente graças à ajuda dos amigos, consegue um emprego de vendedora de cosméticos e enxoval. Vai trabalhando e juntando dinheiro, até que aluga uma casinha pequena. Para ela e Samantha estava muito bom. Os anos se passam. Rosalícia se firma no ramo e se torna uma empresária. Mais anos se passam. Samantha estava agora com dez anos e era a mais bonita da escola. Do pai ela nunca tinha ouvido fa-lar, mas também Rosalícia nem tinha tempo para isso. Preocupava-se em trabalhar bastante e esquecer aquele infortúnio que a fez passar por momentos terríveis. Agora estava tudo bem. Samantha estava lhe dando muita alegria. Nada mais havia no mundo para ela agora. Somente a fi¬lha.
O tempo passando. Puxa, Samantha já teve sua primeira menstruação. Já está usando sutiã. Como o tempo voou, meu Deus.
- Samantha, vamos ao Convés? Hoje tem um bailinho legal.
- Ah é? Vamos Sim.
- Uau, tem cada gatinho que você precisa ver.
Toda uma história de geração se repete. Grupinhos, encontros, bailinhos, paquera. Samantha seguia o curso normal. Com as amigas Isabela, Sandra, Cristiane e Paula ela percorria os locais de encontro e ia levando sua vida. Na escola ia tudo bem, mas namorado ainda não tinha e não era por falta de pretendentes. Toda a rapaziada vivia babando por aquela meni¬ninha jambo, de nariz delicado, pele de pêssego, bundinha arrebitada, boquinha bem desenhada. Era a garota dos sonhos. Samantha era linda.
- Puxa, Samantha, você notou que aquele carinha que estava com o Sér¬gio, não tirava os olhos de você?
- Bem, pra falar a verdade nem reparei.
- Ah, também não precisa esnobar, né?
- É verdade, eu estava distraída o tempo todo. Eu estava conversando com a Mônica.
- Na próxima vez que voltarmos lá, aposto que ele vai estar lá de novo.
Cada vez que Samantha voltava para casa, Rosalícia a esperava para conversarem. Sempre que a menina perguntava sobre o pai, Rosalícia deixava a conversa para amanhã, como se tivesse adiando aque¬la revelação.
- Mãe, hoje a senhora não escapa. Quero saber do papai. Você sempre dizia que eu era muito nova para saber disso. Mas isso já passou. Estou com quinze anos.
- Claro, querida. Esta mesmo na hora de você saber.
- Você sempre diz para eu tomar cuidado com os rapazes, coisa e tal, mas não me contou ainda como foi sua vida.
- Bem, pra falar a verdade, filha, não existiu nada de interessante mesmo. Eu namorei um rapaz chamado Henrique durante cinco anos. Pensávamos em nos casar. Tínhamos muitos planos. Naquela época eu trabalhava na loja do seo Antenor, aquele que hoje é dono das Lojas Maraba. Tudo ia correndo bem, até que o Henrique ficou deslumbrado por uma outra mulher, bem bonita e rica, que havia conhecido em Pouso Alegre.
- E como você ficou sabendo?
- Ah, filha, você sabe como são essas coisas, ainda mais aqui em são Lourenço, onde as noticias correm rapidamente. E soube mais ainda: Henrique estava namorando com essa moça.
- Ele te contou isso?
- Sim. Praticamente eu o obriguei a confessar. Dizia que ia se casar com ela, que já estava cheio daquela vidinha chata que levávamos nesse lugarzinho atrasado, onde nada acontecia, que não agüentava mais o tédio, sabe?
- Bem, e ai?
- Aí e que ele se casou mesmo, embora jurando que gostava de mim, mas que não via futuro algum na nossa relação... Ah, eu quis morrer, mas aos poucos fui superando e buscando forças para viver. Três anos depois em 1978, ele voltou a me procurar. Propôs um encontro comigo
Naquele momento tudo recomeçou. Uma fagulha de esperança reacendeu a chama e eu tive a impressão que ela ainda gostava muito de mim. Mi¬nhas amigas todas foram contra, afinal ele já estava casado e não podia voltar atrás. Fui ao encontro e adivinha no que deu?
- Ora mãe, não sei. Deu tudo certo?
- Tão certo que acabei ficando grávida de você.
- Ah, então esse tal de Henrique que é meu pai? Que barato. Nasci de um encontro clandestino, então. Mas aí, e você?
- Ah, fiquei na rua da amargura. À custa da ajuda de alguns amigos é que consegui ter você e ir tocando a vida.
- Mas e seus pais? Meus avós?
- Eles moram em Cerieira, na Fazenda Bom Jesus. Me tocaram de casa e eu nunca mais os procurei. Não sei como estão vivendo...
- E meu pai? Voltou algum dia?
- Não, nunca mais o vi. Mas ele não mora muito longe daqui, não. Só que onde ele mora não vou te contar, Samantha. Sinto muito.
- E ele pelo menos, sabe da minha existência?
- Deve saber. Acho que contaram pra ele. Nunca mais me procurou e sequer quis saber se eu precisava de alguma coisa.
- Então você deve ter raiva dele.
- Não, até que não, mas na época fiquei revoltada com a falta de interesse dele. Hoje estou mais calma. A culpa foi minha, aliás, a culpa é sempre da mulher. Ele já estava casado, eu que fui a intrusa.
- Não importa como tenha acontecido, mãe, eu acho você um barato. Isso não tem importância agora.
- Ah, querida, eu sabia que podia contar com você. Agora vá dormir, que amanhã tem escola.
Dias depois novamente tem bailinho no Convés. Em com¬panhia das amiguinhas Samantha dirige-se ao clube, desta vez curiosa para conhecer o tal admirador. Assim que adentram o local os olhares se desviam para ela. Percorrem o salão e Cristiane, com sutileza, aponta aquele rapaz formoso e bem vestido. Sim, elas tinham razão. O carinha era pra lá de bonito. Aproxima-se dele, dançam juntos. Intervalo. Coca-cola.
- Sabe, há dias que não paro de pensar em você. Desde aquele última vez que estive. Diga, você tem namorado?
- Vamos dar uma voltinha de moto?
- Mas não vamos demorar. Estou com umas amigas.
Naquele gramado fresquinho os beijos se repetem, as carícias são plenas e Samantha e César descobrem: estão loucamente apaixonados.
- Puxa, Samantha, estou louco por você. Quero que você conheça minha família.
- Calma, César, é cedo ainda. Mal acabamos de nos conhecer.
- Tem razão, vamos dar mais um tempinho. Primeiro vou contar pra eles que tenho uma namorada, a mais linda de todas.
Toda eufórica Samantha chega em casa e dispara a novidade para a mãe.
- Adivinha aonde vamos sábado agora?
- Ora, filha, não faço a mínima idéia.
- Vamos até Varginha. Meu namorado mora lá.
- O quê? Seu namorado? Que história é essa?
- Isso que você ouviu, mãe. Estou namorando um rapaz de Varginha.
Sábado vamos conhecer seus pais, ele me deu o endereço. Eles estão nos esperando para o almoço. Chique não?
Chega o sábado tão esperado. Samantha e Rosalícia dirigem-se até aquele endereço mencionado no papel. Era uma casa bonita, bem cuidada. César estava esperando-as no portão. Entram.
- Puxa, Samantha, como é bonita a sua mãe.
- Também, pudera, eu tive a quem puxar.
- Deixe de ser convencida. Dª Rosalícia, vamos entrando. Meus pais estão nos esperando.
- Pai, essa é a Samantha. Veio com a mãe.
- ROSALÍCIA
- HENRIQUE?
Ambos estupefatos, confusos, desconcertados, se olham com espanto.
- O que? Vocês já se conhecem?
- Por favor, Rosalicia, diga-me: você é que é a mãe de Samantha?
- S-Sim...
- Então ela e César...
- Sim...