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quarta-feira, 3 de junho de 2009

Conto " TRINTA ANOS "

TRINTA ANOS


Conto:

NOZIEL ANTONIO PEDROSO

03 de Janeiro de 2008




Ela era pouco mais que uma adolescente, corpinho delgado, cintura fina, olhos brilhantes, cabelos esvoaçados ao vento, mente, quiçá, povoada de sonhos e aspirações, hipocampos a faiscar freneticamente, neurônios agitados, à procura de conhecimento e novos horizontes. A mocinha de figura graciosa era, até então, apelidada pelos parentes de pau de virar tripa, face à acentuada magreza que sobressaía-se por sobre as vértebras pontiagudas. Desde então a moçoila, já integrante do serviço público, começava sua escalada rumo a uma desgastante carreira no Poder Judiciário. Trinta anos atrás. Credo, o que é isso? Ora, é simplesmente três décadas, 10.950 dias, 360 meses, enfim, é tempo pra cristão nenhum botar defeito. Já pensou agüentar todo esse tempo num só lugar e, pior ainda, no serviço público? Pois é justamente isso que Teresa Cristina Paiva Vicente, vem enfrentando desde que era uma garota de apenas 19 aninhos, certamente com objetivos proeminentes, em contato direto com a corrente da roda viva, com os hormônios exacerbados e ânimos á flor da pele. Mas (sei que é um lugar comum insuportável) o tempo passou e, com ele carregou todos os acontecimentos que ocorreram nesse período. Mas... não apagou as lembranças, amargas ou doces, que ocorreram durante esse tempo e que dele foram originários.
Aliás, dissertando-se sobre o assunto tempo, todos os períodos, na verdade, são válidos e até imprescindíveis nas nossas vidas. Sem essa de querer ficar a vida toda nos vinte anos, como se isso fosse garantia de felicidade. Cinco anos após, você com a mesma cara, mesmo jeito, mesmos hábitos. Dez anos após, você mesma cara, mesmo jeito, mesmos hábitos. Vinte anos após, você mesma cara, mesmo jeito, mesmos hábitos. Trinta anos após, você mesma cara, mesmo jeito, mesmos hábitos. Até quando você agüenta isso? Você vendo passar por si a batalha dominadora, arrasadora, levando tudo pelo caminho, a ascensão dos mitos, a efervescência da massa, a mudança de regras, a evolução das espécies. E você lá, novinho em folha, mas sem motivação alguma, em contraste com o que se passa à sua volta. Isso não é mais uma dádiva, é um desespero, um caminho sem volta, uma prisão em forma de monstro. Quero ser mais velho, quero ter a sensação de ter vivido todos esses anos, de ter aprendido a ser mais ponderado, quero ter a sabedoria dos mais velhos. Não. Não quero mais ter eternamente vinte anos, cansei de ficar nos vinte anos e não desenvolvi até hoje o bom senso, a prudência, a sabedoria, o discernimento.
Imagine você vendo passar pelo corredor invisível da vida, os acontecimentos mais variados, e inerte em seus vinte anos, com seus contemporâneos velhos, doentes ou mortos. E você sozinho, sem afinidade com a geração de sua idade, já que os valores entram em choque com suas idéias e costumes. Se arrependimento matasse. Não quero mais ter vinte anos. Queria ter seguido o curso normal da minha vida, puta merda. Não agüento mais ter vinte anos por toda a vida.
E trinta anos passa mais depressa do que pensamos. O que houve de marcante trinta anos atrás? Fora as tragédias diárias, que de tantas que são, nem mais marcamos as datas, ocupava o Vaticano o Pontifício Paulo VI. Elvis Presley, até então o maior ídolo do rock mundial, morre, com apenas 42 anos, de overdose de drogas, vício que o acometia já há alguns anos. Na música as paradas de sucesso, televisivos e radiofônicos, eram dominados por Antonio Marcos (morto em abril de 1992) com Quem dá mais, Sidney Magal com O meu sangue ferve por você e Peninha com Sonhos. Outros sucessos, ainda, invadiriam as rádios no decorrer daquele ano como aquele estrondoso sucesso de César Sampaio Com uma lágrima na garganta e Benito di Paula com Assobiar ou chupar cana. A TV Tupi, arrebatava as atenções como uma das mais populares emissoras do País. Na época exibia a novela O Profeta, escrita por Ivani Ribeiro, uma especialista em criar sonhos e fantasias para milhões de brasileiros sonharem acordados no horário nobre.
E Teresa Cristina? Curtia tudo isso e vivia intensamente toda essa gama de euforia. Final dos anos 80 e começo dos anos 90 a - já agora - jovem senhora e genitora de um trio de varões, estava trabalhando em outra cidade, no setor administração. Devido à correção no seu ofício e bom conceito que desfrutava junto aos superiores, ela teve o nome indicado para uma promoção que modificaria totalmente seu rumo profissional. A jovem passaria a comandar um cartório com três subdivisões, teria carta branca para tecer os serviços à seu modo. Cristina tomou aquilo como um grande desafio e, de certa forma, via-se temerosa em aceitar essa grande mudança, seja pelo desconhecido que nos mete medo (como diz Caetano Veloso: (e à mente apavora, o que ainda não é mesmo velho), seja por insegurança e receio de falhar no que lhe fôra confiado. E agora? Será que aceito? Será que não aceito? Ora, se eu não aceitar vou perder uma grande oportunidade. E tudo pode dar certo, porque não? Vou me esforçar bastante para garantir meu sucesso nessa empreitada. Que é isso, eu com medo de falhar? Mas que porra é essa? Não posso me permitir esse fiasco, afinal a vida é feita de desafios, as metas devem ser atingidas. E eu bancando a cagona? E, ainda, posso contar com a ajuda dos amigos. Caso contrário, se eu não aceitar vou estar fugindo de uma responsabilidade e me acovardando às oportunidades que a vida nos dá. Quer saber? Já aceitei! Ah, puta merda, não devia nem ter me deixado levar por pensamentos negativistas. Tenho amigos aqui no recinto. Tenho certeza que todos vão me dar a maior força, e é certo que estamos juntos há um tempão.
Cristina enganara-se. Aí é que ela começou a enxergar melhor o que realmente é o ser humano, começou a reparar que entre as plantas havia ervas daninhas, que o trigo estava sendo contaminado pelo joio, que inseria-se de forma clara e evidente naquele clima de amizade, a decepção, o malogro, gerando assim a resignação e a certeza que tais demonstrações de carinho eram convenientes enquanto perdurassem certos interesses. O quê? Não é possível, mas aquele sujeito me descartou. Pôxa, ele sempre foi meu amigo, tomamos umas juntos várias vezes, demos boas risadas na madrugada. Meu Deus, aquele outro, que só faltou me jurar amizade eterna? Cantamos por diversas vezes no mesmo tom. Como é que teve coragem de me virar as costas, justo agora que eu mais preciso de apoio? Puxa vida, como a gente se engana com o caráter alheio. Nunca imaginei que aquele indivíduo iria mostrar essa sua outra face, que eu, ingênua e tola, desconhecia até então, aliás preferia também nunca ter conhecido a primeira face, pois ela é realmente o perfil encenado por essa face que agora se mostra de forma inequívoca.
Mas, todavia, por mais que seja forte a tempestade, por mais que seja rigorosa a rajada de vento que parece arrasar tudo pelo caminho, sempre aparece a bonança para amenizar tudo. Agora é que vou poder realmente conhecer meus verdadeiros amigos. Cristina, coitada, levou fama até de mulher infiel para conseguir a promoção. Que calúnia, que crueldade, como o ser humano é leviano e inconsequente. Esses comentários infundados e sem razão de ser, ecoavam pelos corredores, pelas rodinhas de conversa, pelos sanitários. A pobre mulher jamais havia imaginado que algum dia seria alvo de tais barbaridades.
Mas com o apoio de uns poucos amigos, a honesta mulher superou todas as decepções e mágoas, sem precisar abaixar a cabeça. É isso, saibamos valorizarmo-nos, saibamos dar vazão à nossa capacidade de superação, saibamos correr em direção ao sol, saibamos dar um basta no falso, na impostura.
Trinta. Trinta anos transcorreram desde aquele, então início de carreira que, diga-se de passagem, vem sendo vitoriosa até agora. E aí, vocês que muito fizeram para que eu não estivesse no lugar que estou hoje? Não vêm me dar os parabéns? Não vêm aqui querer saber como eu me saí, depois de toda torcida contra? Hein? Por que não reconhecem que vocês falharam? Eu não fracassei porra nenhuma, como vocês esperavam e até torceram. Eu entrei em todas as estruturas e soube sair delas, caminhando com cautela. E vocês o que fizeram de bom durante essas três décadas? Já sei, aposto que amargaram derrota atrás de derrota. Não viram o tempo passar, (como Carolina, do Chico Buarque) debruçados na janela? E então, conseguiram edificar algo? Nunca desejei nada de ruim a ninguém, isso não é de minha índole, mas como se diz por aí: o peixe morre pela boca. Sinto muito, mas eu venci e vocês perderam. Não guardo mágoa alguma, mas toda decepção me deu uma grande lição de vida: Nunca deixe que uma vitória te conquiste de vez, tampouco que uma derrota te derrote.
É isso, eu sou mais eu e estou com tudo!


Texto escrito especialmente para a minha amiga (e chefe) Teresa Cristina Paiva Vicente, que em 15 de dezembro de 2007, completou trinta anos no serviço público.
Registro-SP

terça-feira, 2 de junho de 2009

Conto " Samanta "

SAMANTHA

Conto:
Noziel Antonio Pedroso
Abril de 1992



- Não seja doida, Rosalícia. O que passou, passou. Henrique está casado agora. Você tem que admitir que perdeu...
- Mas, Rosana, ele marcou um encontro comigo, ele ainda me quer. A mulher dele está longe... não vou resistir...
- O que você espera de um homem desse? Você acha que ele vai largar a mulher e o filho por causa de você?
- Claro que não, mas quero ter o gostinho de ver aquela perua com um par de chifres na testa. Na verdade o Henrique ainda me ama. Se ele gostasse realmente da mulher não teria me procurado...
- Deixe disso, boba, ele só quer se divertir. Sabe como é, variar um pouco.
- Rosana, estou decidida. Vou passar esta noite com Henrique. Apesar das contestações das amigas e de todos que conheciam seu passado com Henrique, Rosalícia estava mesmo disposta a levar seu plano até o fim, afinal foram cinco anos de namoro, ela não podia se conformar assim. Muitos planos foram feitos, tudo estava maravilhoso, até que chegou aquela mulher exuberante para virar a cabeça de Henrique e, o que é pior, levou-o ao altar.
Henrique e Rosalícia. Motel. Champagne. Lençóis coloridos. Cheiro de desejo no ar. Entrelaçamento de corpos. O amor reprimido dava agora vazão à sua existência, em toda sua plenitude.
- Você e esplêndida, Rosalícia. Como e bom estar aqui com você.
- Fale menos, Henrique. Vamos aproveitar esses nossos momentos com sofreguidão. Me abrace de novo.
Fim de noite. Começo de madrugada. A alvorada dava in¬dícios de sua chegada, com as gotas de orvalho vagarosamente batendo nas folhas, provocando um leve ruído que mais parecia um afago aos ouvidos. O silêncio era absoluto.
- Tenho que ir agora, meu bem. Ainda hoje tenho que visitar um cliente em Perdões.
- Puxa. Já? E quando vamos nos ver outra vez?
- Não sei. Vai ser difícil... mas quando der eu procuro você.
Henrique, apesar de ter se mostrado carinhoso, ardente, não tinha a mínima pretensão de abandonar a esposa para viver com ela e, isso ficou claro para Rosalícia que aceitava aquela situação. Henrique estava trabalhando numa empresa de laticínios e ocupava um cargo importante. A empresa pertencia a seu sogro, um dos mais bem sucedidos empresários do setor pecuarista. Passa-se uma semana. Duas. Três. Nem sombra de Henrique. Rosalícia sonhando com um novo encontro.
“Porque ele disse que vai ser difícil? Ele não pode fazer isso comigo”. Rosalícia vai pensando e caminhando.
De repente sente uma indisposição. Fica tonta. Escora-se naquela parede que esta a sua frente. Não era possível. O que estava acontecendo?
Apavora-se. Fica pálida. Aqueles sintomas... que ela tanto já ouviu falar. Não... Não podia ser... Corre para casa da amiga Rosana à procura de ajuda. Juntas resolvem ir ao médico. Exame. Teste. Putz, e agora?
Será? Como é angustiante esperar um resultado desse tipo. Puta merda. Que situação. Chega o médico com o resultado. Ele apenas balança a cabeça afirmativamente. Rosalícia estava grávida. Ela sente o solo lhe faltar aos pés. E agora? E Henrique?
Depois de ser escorraçada de casa pelos pais, Rosalícia percorre casas de amigos. acomoda-se aqui e acolá, trabalha como faxineira numa casa, como diarista em outra. Assim ela vai levando a vida. O tempo passando. E Henrique? Nunca mais ouviu falar dele. Também nem mais queria. Aquele filho ia ser dela somente. Não ia ter pai. Henri¬que fica sabendo, mas nada podia fazer. Ele estava casado e muito bem casado, com a filha do dono da empresa onde tinha um cargo de confian¬ça. Quanto tempo ele esperou por isso? Imagine, depois de tanta luta, largar tudo para viver com uma que não tem onde cair morta? Eu, hein... Nem pensar... Puxa vida, gostei tanto dela. Ela me ajudou muito. Me deu tantos conselhos... mas... também, né ... que se há de fazer? A vida não pode ser levada e motivada apenas pelas coisas do coração. A gente tem que agir pela razão, senão dança... Não se mexe em time que está ganhando. Então, Rosalícia, sinto muito... você até que é jeitosa, gosto de estar com você, mas ninguém mandou você não ter dinheiro... Rosalícla, a barriga crescendo. Nossa, como está enorme. Está chegando o dia... Você não está em condições de trabalhar...
Chega o dia. Vamos pra maternidade. Ai, estou tão nervosa. É natural. É a primeira vez. Vai, empurra com força. Mais, Mais... Ahhhhhh... Ainda não deu... Já apareceu a cabeça... Força... mais um pouco... Está vin¬do. Nossa... saiu... pega com cuidado... Deixe-me ver... é uma menina! Nossa, que gracinha. E agora? Mais uma boca para alimentar... Qual vai ser o nome dela? Ah. já escolhi: Samantha. Samantha? Puxa, que nome boni¬to. Rosalícia, novamente graças à ajuda dos amigos, consegue um emprego de vendedora de cosméticos e enxoval. Vai trabalhando e juntando dinheiro, até que aluga uma casinha pequena. Para ela e Samantha estava muito bom. Os anos se passam. Rosalícia se firma no ramo e se torna uma empresária. Mais anos se passam. Samantha estava agora com dez anos e era a mais bonita da escola. Do pai ela nunca tinha ouvido fa-lar, mas também Rosalícia nem tinha tempo para isso. Preocupava-se em trabalhar bastante e esquecer aquele infortúnio que a fez passar por momentos terríveis. Agora estava tudo bem. Samantha estava lhe dando muita alegria. Nada mais havia no mundo para ela agora. Somente a fi¬lha.
O tempo passando. Puxa, Samantha já teve sua primeira menstruação. Já está usando sutiã. Como o tempo voou, meu Deus.
- Samantha, vamos ao Convés? Hoje tem um bailinho legal.
- Ah é? Vamos Sim.
- Uau, tem cada gatinho que você precisa ver.
Toda uma história de geração se repete. Grupinhos, encontros, bailinhos, paquera. Samantha seguia o curso normal. Com as amigas Isabela, Sandra, Cristiane e Paula ela percorria os locais de encontro e ia levando sua vida. Na escola ia tudo bem, mas namorado ainda não tinha e não era por falta de pretendentes. Toda a rapaziada vivia babando por aquela meni¬ninha jambo, de nariz delicado, pele de pêssego, bundinha arrebitada, boquinha bem desenhada. Era a garota dos sonhos. Samantha era linda.
- Puxa, Samantha, você notou que aquele carinha que estava com o Sér¬gio, não tirava os olhos de você?
- Bem, pra falar a verdade nem reparei.
- Ah, também não precisa esnobar, né?
- É verdade, eu estava distraída o tempo todo. Eu estava conversando com a Mônica.
- Na próxima vez que voltarmos lá, aposto que ele vai estar lá de novo.
Cada vez que Samantha voltava para casa, Rosalícia a esperava para conversarem. Sempre que a menina perguntava sobre o pai, Rosalícia deixava a conversa para amanhã, como se tivesse adiando aque¬la revelação.
- Mãe, hoje a senhora não escapa. Quero saber do papai. Você sempre dizia que eu era muito nova para saber disso. Mas isso já passou. Estou com quinze anos.
- Claro, querida. Esta mesmo na hora de você saber.
- Você sempre diz para eu tomar cuidado com os rapazes, coisa e tal, mas não me contou ainda como foi sua vida.
- Bem, pra falar a verdade, filha, não existiu nada de interessante mesmo. Eu namorei um rapaz chamado Henrique durante cinco anos. Pensávamos em nos casar. Tínhamos muitos planos. Naquela época eu trabalhava na loja do seo Antenor, aquele que hoje é dono das Lojas Maraba. Tudo ia correndo bem, até que o Henrique ficou deslumbrado por uma outra mulher, bem bonita e rica, que havia conhecido em Pouso Alegre.
- E como você ficou sabendo?
- Ah, filha, você sabe como são essas coisas, ainda mais aqui em são Lourenço, onde as noticias correm rapidamente. E soube mais ainda: Henrique estava namorando com essa moça.
- Ele te contou isso?
- Sim. Praticamente eu o obriguei a confessar. Dizia que ia se casar com ela, que já estava cheio daquela vidinha chata que levávamos nesse lugarzinho atrasado, onde nada acontecia, que não agüentava mais o tédio, sabe?
- Bem, e ai?
- Aí e que ele se casou mesmo, embora jurando que gostava de mim, mas que não via futuro algum na nossa relação... Ah, eu quis morrer, mas aos poucos fui superando e buscando forças para viver. Três anos depois em 1978, ele voltou a me procurar. Propôs um encontro comigo
Naquele momento tudo recomeçou. Uma fagulha de esperança reacendeu a chama e eu tive a impressão que ela ainda gostava muito de mim. Mi¬nhas amigas todas foram contra, afinal ele já estava casado e não podia voltar atrás. Fui ao encontro e adivinha no que deu?
- Ora mãe, não sei. Deu tudo certo?
- Tão certo que acabei ficando grávida de você.
- Ah, então esse tal de Henrique que é meu pai? Que barato. Nasci de um encontro clandestino, então. Mas aí, e você?
- Ah, fiquei na rua da amargura. À custa da ajuda de alguns amigos é que consegui ter você e ir tocando a vida.
- Mas e seus pais? Meus avós?
- Eles moram em Cerieira, na Fazenda Bom Jesus. Me tocaram de casa e eu nunca mais os procurei. Não sei como estão vivendo...
- E meu pai? Voltou algum dia?
- Não, nunca mais o vi. Mas ele não mora muito longe daqui, não. Só que onde ele mora não vou te contar, Samantha. Sinto muito.
- E ele pelo menos, sabe da minha existência?
- Deve saber. Acho que contaram pra ele. Nunca mais me procurou e sequer quis saber se eu precisava de alguma coisa.
- Então você deve ter raiva dele.
- Não, até que não, mas na época fiquei revoltada com a falta de interesse dele. Hoje estou mais calma. A culpa foi minha, aliás, a culpa é sempre da mulher. Ele já estava casado, eu que fui a intrusa.
- Não importa como tenha acontecido, mãe, eu acho você um barato. Isso não tem importância agora.
- Ah, querida, eu sabia que podia contar com você. Agora vá dormir, que amanhã tem escola.
Dias depois novamente tem bailinho no Convés. Em com¬panhia das amiguinhas Samantha dirige-se ao clube, desta vez curiosa para conhecer o tal admirador. Assim que adentram o local os olhares se desviam para ela. Percorrem o salão e Cristiane, com sutileza, aponta aquele rapaz formoso e bem vestido. Sim, elas tinham razão. O carinha era pra lá de bonito. Aproxima-se dele, dançam juntos. Intervalo. Coca-cola.
- Sabe, há dias que não paro de pensar em você. Desde aquele última vez que estive. Diga, você tem namorado?
- Vamos dar uma voltinha de moto?
- Mas não vamos demorar. Estou com umas amigas.
Naquele gramado fresquinho os beijos se repetem, as carícias são plenas e Samantha e César descobrem: estão loucamente apaixonados.
- Puxa, Samantha, estou louco por você. Quero que você conheça minha família.
- Calma, César, é cedo ainda. Mal acabamos de nos conhecer.
- Tem razão, vamos dar mais um tempinho. Primeiro vou contar pra eles que tenho uma namorada, a mais linda de todas.
Toda eufórica Samantha chega em casa e dispara a novidade para a mãe.
- Adivinha aonde vamos sábado agora?
- Ora, filha, não faço a mínima idéia.
- Vamos até Varginha. Meu namorado mora lá.
- O quê? Seu namorado? Que história é essa?
- Isso que você ouviu, mãe. Estou namorando um rapaz de Varginha.
Sábado vamos conhecer seus pais, ele me deu o endereço. Eles estão nos esperando para o almoço. Chique não?
Chega o sábado tão esperado. Samantha e Rosalícia dirigem-se até aquele endereço mencionado no papel. Era uma casa bonita, bem cuidada. César estava esperando-as no portão. Entram.
- Puxa, Samantha, como é bonita a sua mãe.
- Também, pudera, eu tive a quem puxar.
- Deixe de ser convencida. Dª Rosalícia, vamos entrando. Meus pais estão nos esperando.
- Pai, essa é a Samantha. Veio com a mãe.
- ROSALÍCIA
- HENRIQUE?
Ambos estupefatos, confusos, desconcertados, se olham com espanto.
- O que? Vocês já se conhecem?
- Por favor, Rosalicia, diga-me: você é que é a mãe de Samantha?
- S-Sim...
- Então ela e César...
- Sim...

quarta-feira, 18 de março de 2009

Conto "AQUI SE FAZ, AQUI SE PAGA"

AQUI SE FAZ, AQUI SE PAGA

(Noziel Antonio Pedroso)

28 de Julho de 1996

Meados de 1960. Cidadezinha do interior de Minas Gerais. Colégio João de Abreu Salgado. Estudantes do curso primário. Turminhas que se formam, amizades que se entrelaçam, gostos comuns e afins, encontro da patota.
- Êi, Susana, vai ter um bailinho na casa de Adriana. Vamos?
- Que horas?
- Ah, sete da noite...
- O Cardosinho vai?
- Acho que sim... ele não perde uma...
- Ah, então não posso perder...
O bailinho que acontece. Som de Renato e Seus Blue Caps, Roberto Carlos e seus contemporâneos, The Beatles. Ensaio de namoro. Beijos roubados. Cuba libre. O mundo acontecendo lá fora. Decretado o Ato Ins­titucional nº 3, nos termos do qual os governadores dos Estados brasileiros serão eleitos por votação do Legislativo; acusado de conspirar con­tra o presidente Mobuto, do Zaire, o ex-primeiro ministro Evariste Kimba é enforcado; a Taça Jules Rimet, roubada antes do inicio da Copa do Mundo, é encontrada por acaso pelo cão Pickles, em um parque público em Londres. E daí? O que importa o que acontece no mundo? Vamos curtir um som legal. Nesse universo de amiguinhos, namoradinhos, um som que era um barato, Lúcia observava a amiga Rute, uma cafuzinha bonitinha e jeitosinha, apesar dos dentes salientes e do cabelo ruim, sempre amarrado, porque era difícil de pentear. Rute, menina pobre e humilde, vivia sempre cercada de atenções, em razão de ser uma pessoa boa, se dava bem com todos. Lúcia, apesar de ostentar uma melhor situação de vida, não tinha o desembaraço e espontaneidade de Rute. Lúcia era filha de professora e de um pequeno fazendeiro. Lúcia se vestia bem, andava com os vestidinhos da moda, causando até inveja em algumas amiguinhas. Rute, tadinha, cabelinho ruim, roupinha surrada, perfume barato, mistral, colônia da contoré. Os garo­tos preferiam a humildade e pobreza de Rute à "riqueza" de Lúcia. E as duas eram amigas.
O bailinho acabou. Vieram outros bailinhos, festinhas de aniversário. Rute, sempre cercada de amiguinhos. Lúcia, quase só num canto da sala. A menina de melhor posição social, começava a nutrir uma inveja secreta pela amiguinha.
- Rute, puxa, eu preciso fazer aquela matéria de História que a pro­fessora pediu, mas eu não sei fazer. Você me empresta seu caderno?
- Claro, Lúcia. Eu pesquisei num trabalho da minha, prima e consegui ­fazer tudo. Se quiser, eu empresto pra você copiar.
- Puxa, você faz isso?
- Espere aqui, vou buscar o caderno. Mas olha, não fala pra ninguém, tá? Vamos fazer de conta que você mesmo fez sozinha... se a professora descobre...
- Nossa, Rute, você é sempre tão boazinha com os outros...
- Ora, Lúcia, acho que a gente deve ajudar sempre os amigos.
Brrrrrr! Isso me dá gastura. Como é que pode? Ser assim tão boazinha?
E o pior é que todo mundo gosta dela. Mas ela é tão pobre, não tem o que comer direito... o que vestir. Já sei, vou dar pra ela. Isso vai deixar ela humilhada.
- Nossa, Lúcia, muito obrigada. Eu estava mesmo precisando de umas roupas. As minhas são tão velhas, que já não da mais para costurar. Essas suas roupas são muito bonitinhas. Muito obrigada mesmo. Vou usar com muito carinho.
Bolas. Ela gostou. Não era pra ela gostar. Era pra ela se sentir ultrajada, diminuída. Meu plano não deu certo. Mas, puxa vida, o trabalho de escola que ela me passou foi tão bem feito. Ti­rei uma boa nota. Se não fosse ela... mas... porque que ela tem que ser tão boazinha? Porque os outros preferem a ela? Ela é tão pobrezinha. E eu? Pago sorvete pras minhas amigas, sempre estou repartindo o meu lanche. Ela, coitada, aposto que nunca viu um pão com presunto. E ainda por cima, preta, de cabelo pixaim, dente pra fora.
- Olha, Rute, trouxe mais umas roupas para você. Sabe, é que meu pai comprou aquele vestido lá da loja do Garcia.
- Nossa, Rute, que bom. Lá só tem vestido caro. Eu nunca que vou poder comprar um. Você sabe, meu pai trabalha na Prefeitura e faz isso daqui para pôr comida em casa. Tem vezes que só comemos mingau.
“Ah, que bom. Então ela confessa que passa fome. Já sei, vou convidá-la para comer lá em casa. Ela vai ficar boba com a quantidade de comida”.
- Sabe, Rute, eu estive pensando, você foi tão boa comigo, me em­prestando o caderno e sempre está me ajudando nas lições. Vamos almoçar lá em casa domingo?
- Verdade? Puxa, que bom. Eu aceito, Lúcia. Estava mesmo querendo conhecer sua casa. Deve ser tão bonita e arrumadinha. Não convido você pra ir à minha, porque você sabe... lá é tão pequeno, minha mãe quase não tem tempo pra arrumar. Eu tenho muitos irmãos pequenos, minha mãe tem que lavar roupa pra fora pra ajudar meu pai...
- Eu sei Rute. Não tem importância, não...
"Ah, agora sim. Vou fazer essa pretinha metida a besta sentir vergo­nha de ser minha amiga. Ela vai ver só".
- Pegue um pouco mais de carne, Rute. Aproveita, que você não está acostumada com isso...
- É verdade, não me lembro qual foi a última vez que eu comi carne lá em casa. Acho que foi no Natal...
- Isso porque foi o prefeito que deu pra vocês...
- Ah, nem sei direito, só sei que comi carne no Natal...
"Caramba, ela não fica constrangida. Nada consegue abalar essa negrinha. Que raiva. Vou apelar".
- Me diz uma coisa, Rute. Seu pai foi escravo?
- Que é isso, Lúcia. Meu pai nasceu em 1930 e a Abolição da Escravidão se deu em 1888. Meu avô, pai do meu pai, já nasceu livre...
- Sabe, que eu tinha me esquecido? Já estudamos isso...
- Agora, meu bisavô foi. Coitado, sofreu tanto ...
- Ah, então já tem alguém da família que foi escravo?
- É, menina, naquele tempo era tão difícil. Minha bisavó, por parte de mãe, era índia. Meu bisavô era escravo. Imagine só...
- Ah, quer dizer que você tem sangue índio também?
- É, de negro e índio... mas eu me orgulho muito disso. Sou negra e não me envergonho disso. Meu pai me ensinou desde que eu era muito pequena, a nos valorizarmos. Eu me sinto forte e em igualdade com qual­quer um.
"Puxa vida, que negrinha de fibra. Consegue sair de todas com cabeça erguida. Não sei mais o que fazer. Mas... puxa, ela é tão minha amiga...
Acabaram-se os bailinhos. Acabou-se o curso primário. Acabou-se a adolescência. Passaram-se os anos. Foi-se com o tempo as festinhas da patota.
- Oi Rute, quanto tempo hein? Como é que você está?
- Lúcia, que saudade... eu estou bem. Trabalho na loja do Marco. Sabe, estou me dando bem. Lá a gente faz muita amizade. "Não acredito. Ela continua se dando bem. Tenho que dar um jeito".
- Valquíria, preciso te falar uma coisa. Olha, eu não queria falar, mas, você sabe né, eu sou muita amiga da Rute...
- Fala, o que houve?
- Ela anda espalhando por aí que você...
- O quê?
- Te digo mais... ela... blá blá, blá...
- Ah, mas se eu pego a Rute...
- Bem, já que estou contando vou contar tudo. Ela... tititi, tereré, tereré, patati, patatá...
- Quem diria, hein... Rute, com aquele jeito de boazinha...
- É, conseguiu enganar. todo mundo...
"Ah, agora sim. Quero ver Rute se sair dessa. Fiz a cabeça da Valquí­ria contra ela".
- Rute, sua vaca, não sabia que você era tão baixa...
- Uai, por que? Que aconteceu?
- Ainda bem que a Lúcia me abriu os olhos, sua traidora...
- Pera aí, não sei do que você está falando ...
- Não sabe, é? Sua sem-vergonha, amiga falsa...
O tempo passando. As coisas acontecendo. Começa a fun­cionar em são Paulo o metrô, sete quilômetros da linha norte-sul. Nos States o brasileiro Emerson Fittipaldi vence pela segunda vez o Campeo­nato de Fórmula 1. O Presidente Ernesto Geisel sanciona a lei que de­termina a fusão dos Estados de Guanabara e Rio de Janeiro. E Rute, que decepção. Lúcia era minha melhor amiga. Porque ela fez isso? Nunca fiz nada pra ela. Mais anos se passam. O mundo acontecendo em notícias. Fa­náticos matam Anwar Sadat. Casamento de Príncipe Charles e Lady Diana mobiliza o mundo. O Presidente Figueiredo é operado às pressas em Cle­veland. É assassinado a tiros, dentro do seu carro, no centro do Rio de Janeiro, o famoso ex-policial Mariel Moryscotte.
- Sabe, a Rute está namorando sério. Acho que ela vai se casar...
- Verdade? Aposto que é com um preto pinguço e mulherengo.
- Não, pelo contrário.É um rapaz branco, trabalha numa grande empresa, ganha muito bem e, parece que ele não é daqui!
- Ah, não é possível. Depois de tudo ela ainda conseguiu se dar bem na vida? Que injustiça... Aquela negrinha, parente de preto e de índio... On­de já se viu?
A ação implacável do tempo continuava a todo vapor, levando para trás lembranças, casas, árvores e ventos. E Lúcia, agora amasiada. Esperando um filho. E o amásio?
- Você viu a Lúcia? Tão cheia de coisas, tão segura de si... acabou se amigando com o Lico, aquele negrinho sem-vergonha, maconheiro e pinguço.
- Não me diga! O filho do Tião Guarda?
- É, aquele mesmo ...
- Nossa, coitada da Lúcia. Me lembro que ela era muito amiga da Rute. Nossa, aquela sim é que era boazinha...
- Se deu bem na vida... casou-se com um rapaz muito bom. Mora numa ci­dade lá em São Paulo, tem casa própria e tudo o mais...
- Pena que ela e Lúcia ficaram inimigas...
- Cá entre nos, acho que a Lúcia inventou tudo aquilo. Não é possível que Rute fizesse tudo aquilo que ela falou...
- É o que todo mundo acha!
Meados dos anos 90. Havia se passado quase trinta anos que Lúcia e Rute haviam se conhecido. Rute, agora estava muito bem. Foi passar férias na casa dos pais. Estava formosa, esbanjando saúde e disposição. Num parque, em que elas se encontravam quando crianças, Rute estava levando uma de suas sobrinhas para passear. Sentou-se em um dos bancos para observar as peripécias da sobrinha ainda infante. A seu lado, uma mulher gorda, dentes cariados, pele manchada, cabelos opacos e sem brilho, ostentando um ar de desolação. Estampava no rosto as marcas dos anos, ainda com resquícios de hematomas pelo rosto.
- Oi ...
- Oi ...eu a conheço?
- Você é a Rute. Não mudou nada nesses anos todos...
- Ué, e você quem é?
- Sabe... você não reconheceu, mas você tem razão. Estou mesmo muito mudada... sou a Lúcia...
- Nossa, não reconheci mesmo... Lúcia! Que aconteceu com você? Me dê um abraço. Não a vejo há décadas...
- É, todos falam, estou acabada, né? Temos a mesma idade. Você está bo­nita, viçosa, bem vestida...
- É que tive sorte, me dei bem na vida...
- Já ouvi falar muito de você... Sabe, Rute, preciso te confessar uma coisa... Há anos que eu carrego comigo esse remorso... Eu preciso te fa­lar...
- Falar o que, Lúcia? Não estou entendendo...
- Sabe, Rute, é difícil prá mim admitir, mas se passou tanto tempo que hoje não me importo mais...
- Nossa, Lucia, você está me deixando curiosa... o que pode ser?
- Sabe, Rute, eu sempre tive inveja de você ...
- O QUÊ? DE MIM? assusta-se Rute.
- É isso mesmo. De você...
- Mas porque? Você sempre teve muito mais do que eu...
- É, por isso mesmo. Eu não conseguia reunir as pessoas perto de mim como você fazia...
- Mas, Lúcia, que bobagem... as pessoas, os colegas gostavam de mim pelo que eu era, naturalmente...
- É, eu me achava melhor que você.... e no entanto ...
- Mas... Lúcia, nunca que eu imaginaria uma coisa dessa...
- Sabe aquela fofoca que eu contei pra Valquíria? Eu confesso Rute, eu inventei tudo aquilo...
- Nossa, Lúcia. Porque fez aquilo? Eu perdi quase todas as minhas amizades com aquelas fofocas...
- Talvez não seja tarde para você me perdoar...
- Olha, Lúcia, eu não guardo rancor. Hoje eu estou muito bem na vida!
- Como está seu casamento?
- Tudo bem, às mil maravilhas, meu marido é muito bom pra mim, me trata como rainha... estamos casados há quase dez anos...
- Nossa, Rute, que bom... sinceramente, hoje fico contente por você, justo eu, que tive tanta inveja de você ...
- E você?
- Ah, é como você já sabe... me amiguei com o Lico, filho de Tião Guarda... Já imaginou... eu que sempre interiormente desprezei você por ser escura... Lico é muito mais escuro que você... e o que é pior, Rute... bebe, é um sem-vergonha, mulherengo, me bate...
- Nossa, Lúcia. Se antes você tinha inveja de mim e hoje reconhece isso, hoje eu não posso deixar de dizer, sem maldade ou com desejo de te humilhar, tenho pena de você. Jamais imaginei na vida que um dia iria acontecer isso...
- Nossa, Rute, como essa vida dá voltas, não é mesmo? Hoje você tem tudo aquilo que eu pensava conseguir na vida e, eu, que sempre desejei pra você o que sou hoje... Os papéis se inverteram...
-Tia, tia ...
- Lúcia, preciso ir. Olha, fiquei realmente contente em revê-la e, mais contente ainda, por você ter reconhecido seu erro... mas acho que é um pouco tarde para repararmos isso... tudo bem, perdôo você, mas a própria vida te ensinou que a inveja é o mais pobre dos sentimentos e tudo que se deseja de mal para alguém que estimamos, acaba por voltar pra nós mesmos. Não perdemos nada na vida por sermos bons, Lúcia ... acredito que você já percebeu isso! Sempre gostei de você e nunca desejei qualquer mal pra você, mas a vida se encarregou de dar a cada uma de nós o destino que merecemos...
- É... estou conformada... aqui se faz, aqui se paga. Ainda bem que consegui lhe falar, senão iria morrer com esse peso na consciência...
- Adeus, Lúcia...
- Até breve, Rute!

Fotos











domingo, 15 de março de 2009

Conto "QUANDO MEUS FILHOS ERAM PEQUENOS '

QUANDO MEUS FILHOS ERAM PEQUENOS

Conto:

NOZIEL ANTONIO PEDROSO

Agosto de 2007

Lembro-me como se fosse hoje. Estávamos ainda a tilintar nossas taças, buscando no ar a renovação da esperança, o êxtase, a alegria imensurável da alma passeando pelo paraíso, a comemorarmos a chegada do novo. Ainda sou capaz de ver brilhos de regozijo a se estabelecerem nos quatro cantos da casa. Minha visão alcança ainda a visualização do mosaico de pedras preciosas a espalhar seu brilho multicor, meus ouvidos captam ainda o som de violinos. Recordo-me, outrossim, com ímpeto sagaz, que achava pouco e bom passar noites quase em claro, fazendo compressas e acompanhando a languidez daquele minúsculo ser, ardendo em febre. Não faz muito tempo, me parece, que o pequeno, entregue aos folguedos, esfolasse o joelho na pedra, sentindo na pele a aspereza e jeito brusco desse nosso mundo tosco, que dele faria parte. Pouco tempo decorreu, quiçá, entre a primeira palavra e a primeira decepção que tive, com aquele ser que habitou minhas entranhas. Quantas vezes corri com o cotidiano, atropelando as atribulações do dia-a-dia para poder dar um pouco mais de atenção àquele que era então a pessoa mais importante e frágil na minha vida. Seguramente aquele tempo era bonito, e mais bonito se tornava ainda quando aquele universo pueril fazia-se presente no tempo e no espaço.
Nunca me esqueci daquela linda manhã quando recebi o primeiro presente. Era um desenho confuso, com traços imprecisos, mais suscitando dúvida que esclarecimento. 0 que realmente seria aquilo? Mas o que importava, se nada parecia? Eu sabia, fôra feito com esmero, com cuidado, num lampejo de fantasia, com precisão impregnada de magia.

Me vem à mente, com total nitidez, que eu deitava-me nas tardes fagueiras a brincar com a brisa, a acariciar as nuvens, qual plumas vagantes que se desfaziam, lépidas, em meus devaneios. Tudo, meu Deus, era tão bom, que eu nem me dava conta que nessa nossa vida terrena, a tragédia, às vezes, anda de mãos dadas e em cumplicidade com a euforia, arrasando com a festa. O fadário, em forma de monstro, não nos poupa de infortúnios, que fazem-nos experimentar uma sensação de horror, sinistro, solidão, resignação, frente a situações que nos fogem das mãos. Não era capaz de imaginar que a dor mais pungente, a pontada mais lancinante, a aflição mais desoladora, estava a me rondar, traiçoeira, pronta a me dar seu bote fatal. Não fazia idéia do quão eu nunca estivera preparada para os solavancos que a vida nos dá, para absorver as agruras que o destino, às vezes, nos reserva, sem piedade. Para mim só existia o brilho do sol, o arco-íris e quem sabe, um pote de felicidade do lado extremo.

Jamais me apeguei a tão tenra e doce recordação quanto aos tempos em que meus filhos eram crianças, puras, qual anjinhos da guarda a enfeitar meus dias. Parecia que toda a energia do mundo estava em minhas veias, parecia que todas as certezas do planeta adentravam minha alma, parecia que todas as árvores do mundo exalavam o mais puro oxigênio que enchiam meus pulmões. Achava que a soma de todos os medos era nada, comparada à minha inclusão na roda viva da dança da exuberância. Eu vivia tão contente, que acenava para o sol e sorria para a lua.
No entanto, quando todas as estrelas serenas pareciam derramar seu brilho sobre a minha pele, quando os mistérios da noite faziam-se longínquos a ecoar estranhos ruídos, aquele acontecimento veio endoidecer todo meu ser. Eu não podia acreditar que meu mundo desmoronara, que aquele nefasto episódio veio a esmagar-me a essência, a torturar-me em crescendo, a estraçalhar-me o âmago, a arrebatar-me a paz e atirar-me à medonha masmorra. Nunca, até então, havia me sentido tão só, tão perdida e desprotegida, tão entregue à inércia e ao destino sem futuro. Perdão, meu Pai, cheguei até a pensar, se não seria melhor eu ter partido antes desse episódio que, seguramente, foi o mais fulminante impacto que atingiu-me de forma avassaladora até o útero. Não, jamais eu seria a mesma, após esse incidente devastador, que abalou-me as estruturas como um tufão em tempestade, arrasando tudo pelo caminho.

Agora sento-me nas tardes vazias, a murmurar de saudade, já sem a cálida esperança de restabelecer contato com a euforia. Nunca havia notado sequer o significado da palavra saudade, até mesmo na canção mais triste já composta por Chico Buarque, PEDAÇO DE MIM, que, em versos sofridos, dispara: “Ó pedaço de mim, ó metade arrancada de mim, leva o vulto teu, que a saudade ao revés de um parto, a saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu”
Apesar do decurso de alguns anos, já não mais acredito na plena alegria, já não conto mais com as manhãs serenas, já não mais dou crédito às promessas do sol, já não mais vejo o desfecho do dia, pois todo sofrimento sugou-me com sofreguidão as forças e a coragem. Não obstante eu tenha caminhado pelas ruas do inferno, nosso Pai Eterno, pegou-me em Suas mãos e assoprou as feridas. Ainda bem. Foi o que me salvou de ter caído para sempre num mar de tristeza e solidão.
Aliás, a duras penas recuperei - por assim dizer - minha coragem, sim, para observar de longe o raiar de um novo dia, de ver findar-se a noite, mas já não mais significam para mim a mesma coisa QUANDO MEUS FILHOS ERAM PEQUENOS.

E ter ciência que isso nunca mais se repetirá, faz-me amargar uma espécie de desilusão e derrota. Porém, sinto que estou sendo afagada pelas Mãos Divinas, o alento mais imprescindível, com a qual fui privilegiada. Mas... a vida continua. Tem que continuar. Há outros seres, no entanto, que amenizaram a dor pela partida de um ser insubstituível... Todavia, transcorram-se dias, semanas, meses, anos, décadas, séculos, milênios, bilênios, trilênios, nada aplacará a dor que sinto desde aquele dia, que preferia nunca ter vivenciado.

Desde aquele 24 de setembro, que as manhãs de primavera não cintilam tanto quanto antes. Nem a doce brisa, em mil anos, me trará de volta a alegria perdida, tampouco a exuberância e perfume das flores me fará regressar ao porto da esperança.



Conto escrito especialmente para minha amiga MARIA DAS DORES PRENZIER OLIVEIRA, referente ao filho Ewald, nascido em 13 de Junho de 1985 e que teve passamento em 24 de setembro de 2004.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Biografia do escritor Noziel A. Pedroso da Cidade de Registro-SP



Foto de Noziel Antonio Pedroso

Contiuando a escrever sobre os escritores do Vale do Ribeira ,hoje vamos conhecer um pouco mais sobre este grande escritor e compositor Noziel Antonio Pedroso da Cidade de Registro-SP no Vale do Ribeira.

Noziel nasceu em Pariquera-açú em 23 de dezembro de 1957,(portanto com 53 anos completos),quinto filho de uma prole de oito irmãos.passou a infancia nos sapezais ás margens da rodovia BR 116,nas proximidades do posto itatins,caçando passarinhos e brincando de bola.
Aos vinte anos foi morar e trabalhar em Três Pontas ,Minas Gerais,Em 1982 ( aos 25 anos ) fez a primeira sinopse de um livro ,que foi lançado em 08 de Outubro de 1993( O Baú, uma trama sobrenatural que discorre sobre um velho baú que continha uma maldição gerada atravéz de várias descendências).Esse trabalho foi feito de forma artesanal e com tiragem de apenas 115 exemplares.Foi nessa época que fez também seu primeiro poema: Jesus Cristo ,10 estrofes,de 6 linhas cada .




Foto do livro "O Baú"

Em agosto de 1983 foi inscrito na Sociedade de Compositores e Autores Musicais,São Paulo-SP.
De 1986 a 1990 Noziel trabalhou como redator publicitário no jornal A Tribuna do Ribeira onde publicou centenas de textos e matérias publicitárias,fazendo,inclusive,artigos sobre música popular,que é o seu forte.

Após o lançamento do primeiro livro ,o artista gráfico João Xavier de Campos (autor da capa e ilustrações) sugeriu ao escritor algo sobre os personagens de registro,sugestão essa logo aceita pelo autor.Em fevereiro de 1994 Noziel saiu em campo colhendo histórias pitorescas para elaboração de seu segundo trabalho nas letras.Todo material apurado rendeu 25 capítulos,até o presente momento,livro mais popular: Registro,histórias,boatos,causos, mitos e lendas de um povo,agora relançado pela terceira vez.. A primeira edição saiu em abril de1997, a segunda em agosto de 1998 e, essa ultima,em fevereiro de 2006.



1º edição do Livro Registro, Histórias, Boatos, Causos, Mitos e Lendas de um Povo ,foi em abril de 1997

2º edição do livro Registro, Histórias, Boatos, Causos, Mitos e Lendas de um Povo ,foi em agosto de 1998




3º edição do livro Registro, Histórias, Boatos,Causos, Mitos e Lendas de um Povo ,foi em fevereiro de 2006

O autor já tem prontos quatro trabalhos na área literária: O ALGOZ E A SUBMISSA,(ficção:a história de uma professora que se envolve com um traficante de drogas,IEIÉ EM PROSA EVERSO (referente a um irmão,que se inicia nas drogas aos 17 anos e morre aos 34), RECANTO DOS INOCENTES (sobre os tempos em que morou numa república, em TRES PONTAS) e CONTOS PRIMEIROS E ÚLTIMOS(uma compilação de mais de 20 contos,a maioria escrita em 2007).

O segundo livro do autor foi além dos limites de registro.Há exemplares espalhados por diversas cidades e estados, inclusive em outros paises como no JAPÃO E ESTADOS UNIDOS (MIAMI). Foi remetido,ainda, a tres artistas televisivo: JO SOARES(1997), GLÓRIA PERES e ROLANDO BOLDRIN(2000).

E uma canção do artista (ciuniverso) foi parar na ALEMANHA. É que a cantora homenagiada com a canção(CIONE DE FÁTIMA BRAS TOSTES,que o autor conheceu em TRES PONTAS-MG) mora nessa localidade.Não obstante não ter, ainda,lançado seus outros quatro livros, Noziel tem outros trabalhos rascunhados:samantha,solo infausto,primavera em cantilena,manto de púrpura e seguidores de caim.

EM 1998 trabalhou como colaborador no Jornal o Regional (registro-sp) escrevendo semanalmente uma coluna intitulada soltando um verbo e se identificava apenas como pan( as iniciais do autor, de trás para frente),onde discorria,de forma ironica,sobre assuntos em efervescencia, com títulos curiosos e intrigantes como VAI UM FIGADO ESPERTO AÍ? sobre a doção de orgãos e UM SOLUÇAR DE DOR,,sobre o feriado de 13 de maio.




Foto da Revista Cidade

Noziel foi tema de matéria no jornal Santista Expresso Popular em abril de 2006 .Há alguns anos foi mencionado ainda no Jornal Diário de São Paulo ,na revista Viva e no periódico A Estância,de Praia Grande.Em agosto de 2008 foi abordado,ainda,na Revista Cidade,editada em Registro-SP.




O Escritor Noziel é também Compositor e letrista,autor de 24 canções (a metade com partituras registradas na fundação Biblioteca Nacional,Rio de Janeiro-RJ). Tem três canções registradas no disco Sem preconceitos, produzido pela Associação dos Negros de Registro-SP, am dezembro de 1990.

O Blog
"Curiosidades do Vale do Ribeira e suas Cidades" se sente honrrado em poder escrever sobre este grande escritor e compositor Noziel Antonio Pedroso .

quem quiser adquirir o livro é só entrarem contato com próprio Noziel pelo fone :

(013) 38216042